quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da insustentável leveza...





Era tão leve que não feria a terra
E nenhuma poça de lama poderia manchá-la
Nenhuma pedra poderia machucá-la
Pois por ser assim, como uma fera
era esquiva como a sombra de uma água
Os cães mais treinados, jamais despertam
Os gatos mais ariscos, nunca lhe fogem
Ela não vibra o solo e as serpentes - tão próximas-
mesmo que se avivem, logo se confundem
Do ressentimento, as dolorosas flechas
Lhe transpassam como se ali nada existisse
e quem quer que a desdita lhe assistisse
nada carregaria dela - nem pena, nem sorte...

Leve, como a pluma mais leve
ela flutua
Como a brisa mais suave e terna
ela segue.

Sua aproximação nunca se sente
Como que invisível, á escuta permanece
Move-se pela escuridão que ilumina e evanesce
Sua voz é a carícia da neblina, que á todos refresca
Palavras cerradas e secas como folhas
espalhadas pelo chão da lembrança
Ocultam a armadilha de um vazio que lhe pesa.
Sustentam esse movimento que a todos encanta
Tão leve que a mais suave brisa, lhe empurra
que o menor dos imãs lhe atrai
E o menor dos ruídos o sono desperta!

Leve como a pequena borboleta
Ela dança
Como a poetisa mais ébria
Ela freme.

Por ser assim, tão instável e perene
Insuportável, a terra se abre,
e num suspiro ela desaparece!

Presas do Tempo.






"Ó mestre de sublime nome e grande saber, supremo Mestre; Ó Mestre Saturno: Tu, o Frio, o Estéril, o Lúgubre, o Pernicioso; 
Tu, cuja vida é sincera e cuja palavra é certa; Tu, o Sábio, o Solitário, o Impenetrável; Tu, cujas promessas são cumpridas;
 Tu, que és fraco e cansado; Tu, que tens maiores cuidados que qualquer outro, e que não conheces nem o prazer nem a alegria; 
Tu, velho e astuto, mestre de todos os artifícios, enganoso, sábio e judicioso; Tu, que trazes a prosperidade ou a ruína, e tornas os homens felizes ou infelizes! Conjuro-Te, Ó Pai supremo, por Tua grande benevolência e Teu generoso favor, a fazeres por mim o que peço.*"




É para ele que ensaio todos os meus gestos
Meu riso, meu canto, meus sonhos e até meus momentos
Mais íntimos... sinto-me como observada por este meu Outro
Estranho... eu bordo as flores em guirlandas de açucenas
para aninhar em seus emaranhados cabelos
Que tem a textura da cinza, ainda quente e macia
Fios claros repletos das folhas caídas do outono
presas em seus cachos tão negros, tão vermelhos
Que lhe caem fartos, pelos ombros
Procuro levar carícia á epiderme felema
Eu sussurro uma canção de minhas preces trêmulas
Ainda que me conserve ainda a salvo e a distância...
A visão de seu desejo não me saciará tampouco

Ainda assim...

Eu corro com toda a fé de quem já esgotou as esperanças
Tropeço, caio por vezes e me levanto ás pressas
com o coração aos saltos do contratempo
Marcado pelo ritmo do meu relógio
Ouço seus passos sempre próximos
Enquanto sorrindo o chamo, o atraio, e me escondo!
Ás vezes me cerca, quase me alcança, me surpreende
ganhando a minha frente num salto
De paixão e malícia,entre a coragem e o assombro
Segue a caçada implacável de todos os sonhos...

Finjo não perceber... entro no jogo
Falseio um novo caminho, confundo-o um pouco
Enquanto as costas daquele que me persegue
Toda a cor, todo o sangue, todo enredo
Vão assim esmaecendo, esvaindo, enredando
pouco á pouco cedendo os pontos
Os laços claros da memória afrouxando
É o Tempo gargalhando, feito louco!
Como um santo que vestisse cascos
Como se tudo o que me arrancou, fosse ainda pouco!

Não importa
Ele necessariamente irá ganhar esta partida
E neste mesmo dia estarei morta!
Tendo em meus braços um amor de toda a vida!


*Prece escrita no século X, segundo alguns sites, mas sem autoria e referência. Quem souber favor postar





segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Inspiração (ou a falta dela)!






Raiva que tenho
Dessa inspiração tardia que me adormece como um canto materno
Um madrigal molhado de sereno em minha testa febril...
Ou que me assalta, violenta, na hora do banho
e se esvai, saciada, junto a água...

É raiva o que eu sinto...
Dessa alegria espontânea que recria o cenário quotidiano
Destes "flashes" de absurdo que, como o relâmpago
Iluminam o mil vezes conhecido, emoldurando um momento...

Sem máquina
Sem pena
Sem sinal
Sem tempo!

Resta á memória um silencioso aplauso de agradecimento
Enquanto aquilo de melhor em nós se escapa pelas coxias da rotina
Escorre pelas frestas do dia-a-dia,
sobrevoando as coxilhas com os quero-queros
do quotidiano
E vai-se embora, sem traço, perfume ou pranto!