sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Eu não sabia...









Amava tuas florestas e oásis, embora não os quisesse
Mas de teus  precipícios, tudo ignorava
Pela escuridão perdida, me cegava
O brilho das estrelas...teus anéis de prata
Eu não via o lobo que ali se encerrava
Que deveria proteger-te, guiar-te, guardar...

-Mas agora, feroz...prontos a te dilacerar...

Eu não procurava por teus mapas...
Entre estantes e escaninhos de madeira escura
Confusa entre línguas estranhas e caligrafias raras
Como uma criança que tentasse salvar do incêndio
o "mimo" preferido, ou aquele de quem mais gosta
Permanecia em êxtase e delírio paralisada

-o peso das escolhas, a impossibilidade das renúncias...

A música estava tão alta que eu já não ouvia nada
Cantando o estribilho daquilo que já não recordava
Seguia batendo palmas, dançando com os pés descalços
Marcando o ritmo com os quadris, girando louca em tuas mãos
Nuas, como poderia agora voltar, abraçar-te, pedir perdão?
Se agora mesmo estou rindo e recito uma prece de condenação?

- Gemidos de gozo, martírios de prisão...

Enquanto você desfalecia, gemendo baixinho
Apagando-se como uma vela á sombra do caminho
Deixando-me na escuridão, vazia e só, sem mais estrelas...




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Onde mora a verdade...






Só no meu jardim há tantas rosas ocultas
E os grilos cantam, estridulam,enlevados
polcas e guarânias, mazurkas e fados
Pelo prazer da verdura fresca e protegida
Que traz o alívio da seiva nutritiva


Na minha varanda apenas, há mistérios
Tecidos na insana tenacidade
Das trepadeiras, onde vitrais de flores se desenham,
Pelos gradis e paredes,pelos fios em que se retorcem
Traçando sorte dos amores contrariados
E a verdade que só vem à tona nos mercados
Esta ali, rebordando minha varanda e encobrindo
Como um manto, meus altares dos olhares profanos
As sapatinhas-de-judias em flor vão se abrindo
apenas para mim, em viciosa intimidade
Se abrigam e protegem dos olhares, do sereno
Resguardando também a mim e ao meu mundo,tão pequeno
Para desfalecerem em sangrentas galáxias
Cachos em borbotões de ardentes promessas...
Que deitam ao chão quando é chegado o tempo


E só no meu jardim há uma fonte de pedra
Onde, perene e fria, Leda observa
As mariposas que se entregam e escapam com malícia de
seu cisne-amante - um Deus vivo! - em renovada alegria,
e onde o brilho das ametistas,topázios e quartzos
Fazem a cama dos gerânios e seus pirilampos

O vento também tintila mil sinos,
em dolorosa canção de fingido pranto
de amorosa desdita e verdadeiro encanto
tão pungente e cálido que parece multiplicar
O perfume da minha rua - como tudo tão singular-
Faz-nos ver que a luz da lua cheia
Torna-se como mãos de alvura delicada
Que tomam para si, sôfrega e a mancheia
 todos os olores-da terra,do mar e das
flores
levando-as ao peito, transforma-as em cores
E após,  líquidas, vibrantes,vaporosas
jasmins,papoulas e rosas, volúpias veludosas
Que estremecem e eriçam seus anseios ao relento
A todas elas mistura,erguendo-as como  a mil véus
de maciez sutil, em multiversos de  tons
Que alegres se agitam, beijando os céus
E derramam-se, claros, transbordando os portões
Lavando os degraus, que à minha casa dão acesso...
Assegurando que do lar não me perca ao regresso

Para maior alegria de todas as minhas noites
Os gatos pulam, se agitam e adormecem
segredam, ronronam,purificam e aquecem
minhas vãs desditas e enganos
E a cã, sentinela dos espíritos
Será a guardiã dos meus sonhos,
Que de tão inconstantes, me agitam e perdem...

Que me importa que, quem veja da calçada
Diga - "aí que mora uma desleixada
Que tem prazer em ver crescer o mato
E que ninguém jamais vê pegar no cabo da enxada,
pintar as paredes ou  arear as vidraças!!!"
Enquanto outro comenta, com condescendência
"-Além de "separada", deve ser cega"...

È que por trás destas janelas - quase sempre fechadas
das trancas inúteis e das portas mofadas
Vive a Bruxa Eterna de um Conto-de-Fadas

É ali que posso ser eu
Que sou só
E sou Nada!