segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Tabagista.








Trago
ao peito
com a fumaça - inescapável
gotas do mal quotidiano

Má sorte
Fadiga
Desengano

Mato no peito
Carrego dentro de mim
um cemitério
E é tanto pranto
Que se o que eu soprasse
De volta- em novelo calmo-
Fosse lágrima
Logo inundaria
O céu inteiro...

Adio então a sina
De morrer afogada...
E o céu dilui em azul-ciano ou
-cinza-prata, meus devaneios
de amônia e cianureto,

O que corre em minha garganta
Em forma de densa toxina
É a palavra áspera e o tapa
Que não estala,
mas que me vem a mente,
e que não lanço,
mas que me laça,
E me fustiga

É o basta que não dou!
É o apelo que adio,
É o ódio com o qual não posso
A raiva que contida no peito
num embaçamento do cenário
vítreo - onde não escrevem nem meus dedos-
por não querer mesmo fazer-me inteligível,
traduzem-se num único suspiro
de veneno.
Me conforta a mágoa clara que sereno.

Meu abrigo de fios macios
Trançado em algodão,
entretecido na dor das mãos calejadas
para minha própria dor...
logo viram cilíndricas almofadas
Onde posso me recostar,
e pensar em lânguidas vagas,
sonhar em pulsar rítmico e,
aquecida neste enleio manso
tecer breves considerações
àqueles meus monólogos íntimos.

E é isso o que eu trago
o orvalho da manhã em
meu refúgio portátil
um lar que levo no bolso,
onde apertam meus sapatos,
Com meus dentes tingidos de lama
Sigo sorrindo flores,
uma capa de invisibilidade bordada
numa suave civilidade,
Onde pode correr livre aquele meu
eu-selvagem
Porque trago para dentro da mente a mata,
Porque nunca fui por inteiro domesticada
E não me deixo caçar. Sigo para a escuridão
Deste meu silêncio...
Ah, o silêncio,
O mais vilipendiado
Dos direitos.

Eis que agora, é também um imã,
Que atrai para mim o dissonante,
o agressivo,
o intrometido,
o fútil e o vazio.

Se o cheiro do meu hálito
-alcatrão e inseticida-
Lhe maltrata o olfato
Não queira saber o perfume
que tem a sua hipocrisia.
Que com ela oblitero...

Se o convívio com meu vício
Lhe põe em risco
Que diria eu do seu caráter...
E eu me pergunto
Se seria o mesmo tanto
 que me enoja!

Eu sou tempestade
Transmutada
- por livre vontade-
Em brisa. Diluída em cinza.
Acho que merecia sim, aplausos
Senão por nada,
Pela iniciativa de penhorar
meus últimos dias
Só para contigo conviver
(como se eu tivesse alguma escolha).

Se eu tivesse mesmo
Escolheria morrer!
E no fundo é um pouco isso
Fumar mata dizem e eu
Acho que sei que não sei
Mas confesso que muitas vezes
só  por saber fumar
Eu não matei.

Enfim, só quem sabe mente,
Ou escolhe o que vai dizer,
E apesar de não parecer,
Eu quero acordar num dia,
Em que o sol brilhe sem que eu
precise desfalecer meus horizontes
e esmaecer,num sopro, minhas mil vozes,
e poder cantar...
Viver este meu inalienável direito
ao silêncio
Bebendo à alma de tudo o que é tão
tímido, e para quem tudo sente e importa...

Fica então o aviso
Desse meu improviso
Eu não fumo o vazio
De uma existência morna
Muito do pelo contrário,
Em mim tudo transborda -
inclusive a paciência -
Então,
Não me compre pelo seu preço
Que não me acharam na liquidação
Por favor, não se faça de louca!

Em nome da minha saúde
Lembre-se de não me ajudar
E na dúvida (de eu querer parar)
por favor,
Cale
A
Boca!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Strip-teases...



Quando passa a mão em frente ao rosto
Para ocultar o olhar,
já sabe das unhas
a promessa
Já sabe da maquiagem
mil cores e de cor sem saltear
todas as mentiras (até agora infinitas)...
Fixa na presa
Não sabe bem o que vai encontrar
E não se importa,
Tratou disso bem antes
Arriscar, arriscar e criar
Para destacar as peças
(trapos multicoloridos de seda)
Que vão suaves ao chão
Plumas de perfume ou penas de faisão
É anunciação
Pede calma e atenção,
Como é próprio do perigo,

E é sem nenhum ruído que se espalham pelo chão
Confissões insinceras, algumas de segunda mão,
Rodopiam pelo ar as mãos, flutuam as palavras,
Que escondem, que encerram, atraem
Desejam
Corre, pelos dedos, enredando nos cabelos,
As tintas da memória,
delírios plangentes dos sentidos entorpecidos...
Uma hemorragia desrazão,
Em redemoinho de imagens
A força da corrente,
As luzes dos refletores
Brincam de esconde-esconde
E revelam-se
No palco...
no cenário,
na tela,
desfolha - por-folha...
E ela rodopia
Improvisa
finge que implora
Excita-se,
Ardente chama,chama,chama
Sua própria dança
Entende
Sabe-se que não será reconhecida.
no que mais se reconhece,
Mas a quem não sabe do seu avesso
Nada importa.
Dançam as sombras, risadas em zombaria...
Ela volta-se, voluptuosa
Avança e morde finalmente
Cerra a angústia entre os lábios
e deixa escorrer pelo queixo
A ironia...

Não, não há ninguém na sala...
Esta sozinha.
E não é dia de ensaio, não senhores
Nem mero exercício
Só o prazer do espontâneo,
Só sensível,
O que a possui agora é algo só por ela
Possuído,
Parece que o "clímax" esta mais próximo
Ela se assusta ao "click",
mas era só a maçaneta
E enquanto isso, lá fora,

Se olhares pela janela
Consegues ver as crianças
Correndo atrás das borboletas...

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Tao.



"O TAO que pode ser pronunciado, não é o TAO" - Lao Tzu


É sobre o que se anuncia
aos quatro ventos, e não se sabe
Do mistério, o véu que esconde
Sua única verdade
Um caminho que se perdeu
Um gesto que se hesitou
E num soluço afogou-se...
Fez-se tão caro o resgate
Que a ligação caiu
Nos desvãos de um espaço vazio
Desviou-se e escondeu...
Chama que não atende
Força que não se entende...

A busca
É no poema, a pedra
Na nota clara, a dissonância
É um açoite que dança
O passo em falso na peça
Que apura o paladar
Especialmente para o doce
Mas traz apreço ao amargo
E cria um caleidoscópio
De sol num ocaso mais raro
Tapete em que deslizam
os pés descalços da lua
que sangra, e teima em saber
que ainda ontem sabia-se minha
mas hoje,não sabe, e é tua

Esta procura que não cessa
Esta sede que não passa
Isso que não se sacia
E sempre acaba em desgraça
É sobre isso que cala
o tapa que estala na pele
Uma resposta que não vem
A carícia que sufoca a mágoa
A represa que arrebenta
Em lama desfaz...a Vale!
O perigo sabe melhor
Que o desespero, mais claro
Um é condor por sobre o abismo
O outro curió engaiolado
E quem não sabe que este último
Será sempre o mais caro?

É sobre isso que grita
É sobre isso que mata
Aquilo que sobrevive
Quando tudo o mais nos maltrata
É enfim tudo o que resta...
E que faz com que haja sobra
Por mais que o Mal nos persiga
E a Miséria bata à porta
No fim a gente se une
A gente parte para briga
E no calor da batalha...
É que a gente descobre

Que é exatamente disso que se trata
Que é de nós sim, que se fala
Que é você que, se toca,
Acende, arde e revela...
Que é de mim, quando sinto,
Transbordo, resguardo,segredo...













sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Origens.






Raiz é escada ao avesso
De retorno
Ao começo
Goteja sangue na pele seca e escura,
pelo tempo crestada e torna -se fonte
Estende -se lençol num colchão de pedras
E brota macio olho d'água clara

Se a estrada se bifurca...estou a ferros na senzala
E em chamas na praça, se ando em círculos perdida
Me fiz ao mar quando chão não mais havia
E para fugir das pragas, cavalguei as dunas,
Souberam de mim apenas o Mal e as estrelas...
Que me serviram ambos, âncora,Ítaca e bússola...

Eu que já fui flor,
Tornei-me pólen
Para dançar invisível
Entre tantos pequenos nós,
Entretecida,
Gota de seda dourada,
Flutuo em redemoinho,
Em nome do amor
Por sobre a brisa...

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Caligrafia







Desenhava letras avulsas, com o indicador molhado de tinta,
Riscando a brisa
Com esmero e carinho, dava o laço a letra no papel
Criando novas assinaturas aos amigos imaginários
E mais tarde tentava copiar a letra dos pais
Rebuscadas e intrínsecas a si mesmas, lhes escapavam
Como peixinhos n'água clara, escorregadias e brilhantes

Mais tarde, fantasista, criava letras para nomes e sobrenomes inventados
Falsária de tantas assinaturas
Não encontrava mais sua própria maneira
Os espaços entre as letras carregados de hiatos
Tão variados quanto exigia a pressa...
E as palavras, que lástima!
Ora, empinavam com raiva indômitas
E já no outro lado desciam o abismo
Como penas caindo no espaço
Como pedras explodindo na água
Explodindo em tinta azul
Manchando a mão vermelha
Trazendo um relevo negro ao outro lado da página...
A caneta, desconfortável, nunca aquietava
Duas vezes do mesmo modo
Na concavidade da mão, que também rebelava-se
E tentava seguir aos ditames da situação
Que logo se perdia de vez.
E era assim mesmo que sua palavra cheia e plena,
no mesmo parágrafo, minguava, até que desaparecesse
E num semi-círculo tornava-se nova letra
Um ponto escuro no papel, que poderia ser
um "s" ou um "a"
Tornava-se ponto final, apertado na margem
De uma história que não encontrava maneira de continuar...

Até que um dia, voltaria a desenhar
E teria não só uma graphia, como todas
Mas outra ainda, muito diversa,
Incompreensível, porque única, exclusiva e nua
Finalmente sua...
Será

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Cassandra.



Atravessei pelo túnel apertado,de pele negra
entorpecida,acorrentada.
Tocando-o podia sentir nas mãos o cheiro
de sangue seco na terra úmida, e o relevo
ósseo das costelas -  veios de marfim traçando suas trilhas-
iluminando como setas a escuridão fechada.
De quando em quando sentia a concavidade
dos olhos pétreos fitando o nada.
E um não sei bem o quê me arrepiava a nuca,
Eu não queria adivinhar o que era mesmo
que batia suas asas pelas minhas orelhas
Avançava...
Uma luz, e o velho índio
Banhando-se calmo na alvorada
"-Passei mesmo..."
-"Passara..."
Sua pele era outra,
papel de seda vermelha;
marrom profunda;
muito amassada...
Dependendo do ângulo
que  se visse através dos olhos d'água -
barrenta escuro poço de mistério -
Sedento de alegria e lamento,
e perpétuo esquecimento.
As palmas também, rasas d'água
Deixavam ver os caminhos não trilhados
Eu bebi e percebi que sua sombra
Era ainda mais negra ao sol do meio-dia...
Em toda a jornada - léguas de vales calcinados,
minas esquecidas, labirintos de estanho, oásis de sonho e vendavais de chama-
foi isso o que mais me surpreendeu...
A dança de um Senhor da Guerra no Vale da Morte...
E eu fugi para a ágora,
me machucando pelas escarpas das gentes,
Entorpecida nas ameias das assembléias,
Sangrando, contemplei o silêncio e o vazio,
Em meio a barricadas,
Era eu sob a máscara, inflamando multidões em marcha,
Fui eu quem fugi da cavalaria, sob uma saraivada de balas
Seguimos, de braços dados, e nunca fui tão eu mesma...
Mas de tudo o que quis e teria sido,
já não há mais nada.
Sentada na cobertura ampla e aberta,
Contemplo o poente sanguíneo, e o mar revolto em seus múltiplos
véus de cores subsequentes,opalascentes, indefiníveis...
emoldurados pela floresta decididamente - vibrante e clara -  verde
num curto-circuito sagrado,
Com os olhos voltados para os céus
Ainda tento ler o traçado dos urubus,
Em seus círculos de ar...




O pássaro.



O amor é um pássaro
que persegui por entre corredores de vidro
na determinação de salvá-lo...
O amor se debate, entre as janelas mais altas,
sem ver as outras, abertas,
O amor me escapa, por entre os dedos
tamanho meu medo de machucá-lo.
Me escapa, com suas patinhas ligeiras,
por uma brecha invisível
da transparente porta,
Em um prédio tão translúcido - pedra e prata,
O amor, sabia-laranjeira - se destaca
Mas eu desisto,
Que aja a sorte
E salve ele a si mesmo
E talvez amanhã, me desperte,
Um suave trinado gentil
nesse vazio tão imenso...


Ao sair...





Quando o ultimo sair, apague a luz
Eu eu...eu permanecerei aqui
Trancada, no escuro, sozinha
Encolhida no canto mais distante
Do meu sonho
onde ninguém me viu,
nem soube, muito menos esqueceu...
Eu esperei, até ouvir o carro se perder
nas marginais do silêncio
confundindo com o ronronar estranho
do metal e do concreto, o urbano,
enrodilhado em si mesmo,
sem adormecer porém...
Senti que era minha vez
Arremessei às paredes cascos e sombras
Deitando ao rio estátuas, cacos e sobras
Acendo as tochas
Acendo a nicotina do prazer  em fadas verdes-azuladas-garoupas,
Liberto meu ódio, enovelando-o em fumaça
Emborcando galões de gasolinha
Em piso negro, teto espelhado em luz negra
Eu danço, chutando para os ar, cacos e gotas
Traçando rios de Veuve Clicquot
Em todos os cantos,
Moet Chandon em suas respectivas velas
de vulcões em cascata...já prontas!
E já fui,estarei indo, serei
O que enfim me seja algo que importa
Prometo
Deixar as mesas em cima das cadeiras
E ao sair, acender as chamas...


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Uivando para a chuva.



Porque muito antes desse tempo,
teu corpo me abraçava contra as pedras frias
juntos e nus estávamos, todos nós, enquanto eu amamentava
os órfãos de caça, filhotes e crias...cobriam-me de peles.
Porque houve aquele momento em que acendemos a fogueiras
à luz da lua
E, em outras noites, dançamos nuas e sós, afirmando a frágil
chama em uma noite eterna...contra maldições e pragas.
E fizemos amor nos campos, em nome da terra.
E fizemos amor nos templos, em nome do povo.
E fizemos amor nas guerras, em busca da vida.
Corremos juntos das balas, encontrei abrigo em teus lábios em sangue.
E torturada, forcei-me a esquecer teu nome.
E por tudo isso, este também é meu eclipse
E o vento que sopra na chuva, pelas frestas do tempo
uiva em retorno...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Manual de Jardinagem I - As flores do medo.

(uma óbvia homenagem ao "meu preferido" Charles Baudelaire)


As flores do medo só crescem
em solo pedregoso e azedo

Prescindem
de adubo, carinho e segredos

Tem sempre
as mesmas sombras e características

Não tem perfume
suas pétalas são escuras e soporíferas

Desabrocham, não raro,
Por apenas um instante ou dois momentos

E se recolhem tímidas,
Inclinadas para si, como num pressentimento

Secam avaras, em frutos
Sempre pequenos, feios e espinhosos

Mas pródigos
Em sementes negras, de um mal venenoso,

Com raízes fortes
São narcóticas,e quase sempre, letais.

Gostam de chuva,
De sombra, e tornam seus pesadelos reais

São ornamentais e utilizadas
na moda e na decoração, culinária e paisagismo

Pois tem, quase sempre,
um toque de classe, um sabor que lhe escapa, um "quê" de abismo...

Crescem aos borbotões
nas paisagens errantes, em tudo o que sangra e corte

Trazem beleza e contornam perfeitas
Os sonhos esquecidos e os jardins da morte!














quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Ao menino Aylan.





O mar acalentou nossas promessas
E ocultou nossos tesouros

Alimentou nossos filhos e ambições
Dando-nos os seus próprios.

O mar foi nosso caminho, quando
Quando quisemos ir mais longe

Quando quisemos estar perto
Nos deu novos horizontes

E lambeu nossas feridas,
Cicatrizou a dor e o corte.

E se foi nosso inimigo,furioso,
Nos trouxe a morte suave.

Porque o mar ama a coragem
e só se agrada com a verdade...

Bebeu, à largos goles,
lixo, ingratidão e óleo.

Tolerou, por tempo excessivo
sondas e aterros, armas e petróleo...

Inspirou nossos poemas,
segredos,amores,canções.

Riu de nossos brinquedos
Sorriu com nossas devoções

O mar até foi parteiro
De algumas de nossas crianças

Mas agora, parece que sente
Esgotar a paciência que cansa...

Recolhe em seus braços o menino
Que em desespero de vida se afoga

Talvez até para o mar
Isto seja a ultima gota d'água

E para a dor que sentiu,
Não existirão jamais palavras

O mar - sabe-se imenso -
Mas que a morte não se vence...

Embala o corpinho, devolve-nos
"-Toma! O horror que a vós pertence..."

E agora sua alma repousa
No lençóis do mar em sonhos tão lindos...

E nós, escravos que somos,
seguimos como mortos, ainda que vivos!








quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Inspiração.






A estrelinha parecia piscar para mim
Eu sorri feliz- mas de repente...não
Sumiu -  talvez fosse só uma gota
de chuva e que ainda se equilibrava
Presa aos negros cabos da fiação.

Valeta,poça d'água, rio,lagoa,mar
Açude barrento, terra encharcada,olhar
Manguezal, nascente clara, riachão...
Tudo que se torna água, brota gota a gota
E ser água é ser pequena, só, imensidão...

Mas aquela era mistério, e permanecia...
Pois talvez não soubesse como ir ao chão
É da chuva saber cair,  jogar-se, flutuar
Porque gota d'água é vida!
Mas a estrela...não!

A estrela vibra, encanta e dança solta
Em outros céus distantes, talvez,
nunca ao alcance da mão
A estrela é sobretudo lembrança,
Guardando para si o que for aflição...

Mas era sim estrela , o que se escondia,
no cortinado da noite, pelos cabos de fiação!
Eu me enganara! Ela piscou e de repente...
Pareceu precipitar-se, riscar os céus...anunciação!

- Era a gota clara do sentimento, virou poema e tinta
 amor e canção...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Do inferno ao infinito...






Tempos difíceis,
De sal e fogo
Tudo sabe a pólvora,
tão difícil respirar!
O perfume da morte
é a lama e o silêncio
Crisálidas dormentes
que estremecem em chamas
fermentando o sonhar
flores murcham ressequidas
Traçando novos caminhos
Desfazendo-se em neblina...


Já foram os anos de verdura e alegria
A que trazia o pão alimentava o sonho
A que botava a mesa, bordava a fantasia
E num estalar de dedos, tudo revivia!
Revezando-se eternas, em meu panteão particular,
Enquanto eu...escrevia poemas sem saber amar,
Afiava as facas, com medo de me cortar,
Jogava os dados ao acaso, para não pensar...

Não sei bem pelo que esperava
E nunca soube -nem por mal- o que queria
Se durante a noite, perseguia as fadas
Tecia mortalhas falsas, durante o dia
Esperando o Tempo atravessar a soleira
Voltava a desenhar com giz as minhas penas
Nas calçadas das ruas de ontem, já desertas,
Pulando amarelinha - do inferno ao infinito -
Consegui atravessar em mil quarentenas...


Eu fechei bem a porta, mas as fadas já se foram,
Com minhas lembranças, pela janela aberta...

Autos de Indiferença





Era para ser o paraíso, mas começamos a trocar
por algumas concessões
e instáveis benefícios

Lembramos o dia em que já foi quase perfeito
E mais um dia já se foi
Já sabemos quem será eleito

Repetem-se os vícios,
Barganhas do sonho desfeito

E o que repete no final
Não é da força estribilho
Mas sempre a mesma batida,
Onde todo o risco é fatal
E já não se atina os trilhos
Ninguém liga se for uma vida...


Pulsão de morte -e-justiça
Que mais parece castigo,
deixa na boca um sorriso
e um gosto amargo de cinza...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pergunta-me




Pergunta-me do Rio do Tempo, por onde corre
Dos números que escorrem na tela, onde se esconderam
Pergunta-me dos impérios de sal, para onde sopraram
E aquele destacamento perdido...como foi que morreram?

Dos homens célebres e das atrizes céleres...porque tão frios?
Dos poetas mortos e das paixões tão vivas...sempre inconstantes?
Dos discursos claros, dos teatros antigos...por que tão vazios?
Dos amigos queridos e dos sonhos passados...por que tão distantes?

Qual seria o nome daquele autor tão citado?
Qual a data de assinatura dos Tratados traídos?
Qual a tradução desta música de língua inventada?
Qual o caminho de volta para um amor perdido?

De tudo o que não sei e queres que desvele
De tudo o que te disse, mas espero que descubras
Fica a lógica...traçado de um desenho que desbota
Refém de uma luz que se revela nas horas mais escuras...

Enquanto eu busco e transbordo, como fonte de onde brota.
toda  a imaginação e cura, toda a certeza e a resposta
Moldando a argila-voz , macio fruto que se enraíza
Nas profundezas do coração, para quem nada disso importa...


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Coisas frágeis...

(Josephine Wall Art)



Só encontrei encanto nas coisas frágeis
Como as pessoas partidas, as paisagens perdidas
e os adeuses de morte...
Como a caligrafia antes amada numa antiga carta
Ou jardim de silêncio, onde florescem as almas
Onde nada mais importa...
Onde de repente surge o aconchego das coisas calmas,
o reencontro,o riso, e a bebida farta, semeando
De sonhos loucos as madrugadas claras
E de canções que guardam a vida, as lágrimas e a vã memória
E dedilhando coragem e apelos seguem mulheres e homens

Só encontrei força onde há encanto
Uma rosa que equilibra sua imagem numa bolha se sabão
O círculo imaginário, traçado pelos meus gatos,
Que permanescem extáticos, em seu constante "rom-rom"
E o saber que ao abrir a porta, depois do trabalho, exausta
Encontrarei minha "cã", brincando, a pedir minha atenção...

Até que um dia...
As letras se apagam, e a intenção se perde
Os amigos se vão e não mais os vemos
A paz se estilhaça, bem como o silêncio
E o jardim é invadido por daninhas e venenos
O vento leva as sementes, mas também as flores
O amor, como os gatos, partem para lugar nenhum
E talvez até "a cã" um dia venha a me faltar

Bolhas de sabão...
meu mundo equilibrado em gotas
destinadas e fenecer no ar...

Intensa!




E então eu me entrego para sempre...ainda que aos pedaços
E me atiro afoita contra o vento, girando em mim mesma
Para me estilhaçar com força em teus abraços
Por inteira...
Eu solto meus cabelos e minhas estribeiras
Como a chama investe em fúria contra a Igreja
Como a onda precipita seu peito nu contra as pedras
Eu galopo em campo aberto,
Rumo ás estrelas,
Do meu jardim secreto...

Eu sou extremista
Radical
Louca
Intensa

E não é por vir a ser sempre uma estranha, em mil facetas
Que deixo de ser eu mesma
Só e tão pequena, frágil e verdadeira!

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O que o seu anjo esta querendo lhe dizer...

                                                     (Quadro de Josephine Wall)
As contas acumulam
Nas agendas que desorganizam
as gavetas se entopem
Do que não queria nunca mais ver
Com aquilo que não sei lidar
Com o que não sei mais o que fazer
A "área de trabalho" é um caos
e os prazos...em plena erupção...
No peito da burocrata
Ainda bate um coração?

-"Ei, você aí...pode me dar uma mão?"

Eu digo sorrindo que sim
Mas  eu sei, bem no fundo que não...
As alternativas se esgotam
E os juros, como o Mal, transbordam
Na fôrma estreita, meu salário
Se o meu nome é trabalho
Meu sobrenome é otário
E se dependo de ônibus
Acrescente-se perda e atraso...
A vilania que tiraniza
O esforço diário- que não se valoriza,
A injustiça que dói
E a "timeline"...repleta
De retrocesso e auto-ajuda
Um clama por gratidão
A outra, chamando para a luta
Não há para o que não se apele
Eu sei que não vai dar tempo
Para o que quer que seja
Mas ainda assim,  indecisa
Entre o mal-pior e
o pior dos males.

E os chefes, infelizmente, são muitos
E se a senda é longa, o céu é estreito
Eu durmo - num sonho de morte
Acordo viva...num pesadelo...

Desistir...é só o quero
Resistir...é só o que faço...

Mas eu não sou nenhum soldado
Exercito só, a arte da sobrevivência
O mundo numa casca de vidro
Vagando de aparência em aparência...

Mas amanhã será diferente
Vou brincar de antigamente
Testar novas cores na paleta
Correr, pulando as pedrinhas
E que se dane á Gazeta!
O dia irromperá, calor e sol
Ainda que relampeia e chova
Sua luz escorrerá por todo o corpo
Encharcando a alma, gota-a-gota,
Um arco-íris que inflama e acolhe
Um momento que fulgura
a gente sega, semeia e colhe
o que, com carinho, se guarda...
Como a pétala no livro, o sal, a joia
Ou uma paisagem...no cristal da retina...
uma foto antiga no relicário sagrado...

Eu ainda reconheço aquela menina
Matar um leão por dia?
Mergulhar, de olhos abertos,
no tanque das cobras venenosas?
Ora...se fosse só por isso,
Ainda assim, valeria á pena!
Mas há os amigos, para brindar á Vida
Contra o Mal, Toda a Liberdade
E a gente sabe...que amanhã é feriado
E que bem no fundo, a gente é que tá certo!
E que no fim, a Esperança vai vencer...
Só porque amanhã é Dia de Você!










quinta-feira, 26 de março de 2015

Mentirosa








Não quero ligar para você
Não quero te ver
ter que pedir
esquecer
lembrar
Não quero...

Quero...

Mentir, distrair, destoar
Eu quero sentir gritar a nota dissonante
da palavra em queda livre, abismo abaixo
Eu quero trair a palavra dada
Eu quero vendê-la
nas esquinas da lógica consagrada
Para que trazer a peito o que
já não toca, não sente?
Se posso dar início ao massacre
Moer as certezas de pancada
Na encruzilhada das dádivas relativas
Da memória Outra
E fazê-la sangrar, vermelha de vergonha
Esgarçar com as mãos todo
o bom senso comum
Até que essa realidade
Essa Verdade
Que maltrata
Fuja, descalça e desgrenhada
até perder-se e sabendo-se inalcançável
Volte a dançar pelas florestas escuras
Ao redor das fogueiras,
Pelas sombras oculta...

segunda-feira, 9 de março de 2015

Madrugada




- E então, o que me dizes?
- ...
Então Ela ouviu...Risos nas horas acidentadas da noite, estendidos pelas calçadas como gatos espreguiçando ao luar.
O inconsolável pranto do amor abandonado, que não conseguirá mais voltar.
Os fios de alta tensão susurrando seus segredos de morte sob a tempestade de raios.
Uma larva opalascente devorando a alegria e o sonho para tecer um fio de maciez e veneno.
Inquebrantável.A queda e o estilhaçar repentino e surdo das promessas quebradas e os cortes finos e dolorosos de quem irá recolhê-las. O crescer lento, inexorável e insensível de novas linhas nas mãos, como galhos de trepadeiras, sufocando toda a escolha. O cair de uma lágrima nascente de um novo oásis. Uma cidade adormecida, sonhando a si mesma, enquanto cada cidadão tenta, a sua maneira, aplacar sua febre em orações de dor e disciplina de aço Uma menina maltrapilha que, acossada pelos vizinhos, pula o muro e é dilacerada pelos cães. O nome da menina é Liberdade e quem mais poderia defini-la?
Uma mãe reinventa a canção de ninar de infância para seu filho perdido. Um punho se ergue e num grito selvagem, tudo explode pelos ares...
. Ela leva as mãos aos lábios instintiva e deixa gotejar
O riso.O pranto, O segredo. O Estilhaçar. O crescer.O brotar.
O delírio de febre,
A cura e a caça,
A canção e o inelutável.
 E a Morte.
Sim, há morte por todo o lugar...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Volta ás Aulas





Com lápis, borracha,caneta
Eu sonho que sou livre
Eu penso que sou poeta
Entre ruínas e escombros
Estou semeando ilusões
Para recobrir meus assombros
E com recortes de revista
Dou nova a forma a cartolina
Disfarçando a solidão
Eu me faço um pouco artista...

Me perco em gráficos e tabelas
Vou me desfolhando em quimeras
Feitas de norma e de névoa
Um labirinto de caos
E do outro lado da linha
Vou desenrolando o novelo
Com carinho para que voltes
Que não se perca de nós!

E com cola e fita crepe
Vou remendando as coisas simples
Do nosso fazer quotidiano
E o que for pedra, vidro e corte
Eu faço algo assim, mais humano
E eu não sei bem se percebes
Mas sigo fazendo assim mesmo...

Não posso esquecer as minhas dores
Minha alma não fica em casa,
Nem guardado na gaveta
Deixei o meu sentimento,
Pois é com ele que eu teço
A luz, a cor e o movimento...
Que brilham e serpenteiam
E que lançarei pelos ares
O lugar a que pertencem...
A incerteza me fustiga
O cansaço me castiga
Mil demônios me perseguem
Para morder meus calcanhares
Mas não há o que me faça
Desistir dessa minha sina...

E com giz de cor e canetão
Criei um novo coração
Somente para dizer
-para você que não me vê-
Que ainda dá tempo para mais uma canção
Que ainda não perdemos nossa vocação
Que diferentes e estranhos, ainda somos irmãos
E que este Ano Novo pode ser o mais lindo
"Bem -vindo...que bom...bem vindo..."





sábado, 31 de janeiro de 2015

On the darkness...




-Avistar os teus portões é algo trágico,horrível!
Por isto mesmo, talvez, se fez num instante irresistível
E vi-me descendo, um a um, os degraus da fatalidade
Eu, que até hoje, só soube amar pelos abismos
Sempre em quedas repentinas e vôos colossais
Reerguendo-me sempre, mais inflamada e ardente...
Ia agora,como a pluma, lenta e leve, leve demais...

Presa dessa minha ânsia,curiosidade fatal,
Tremendo sempre,no frio sentido do pesar,
Eu sigo em frente,pois o saber é mortal,
E isso sim é humano: o desejo, o sonhar...
Sentindo,sem que nunca me pudesse tocar,
um presságio- eis minha própria lápide em pedra
Que me espera e me quer, prestes a desabar!

Teus salões se abrem bruscos e sem véu
aqui onde não é noite e há escuridão demais
Não há lar e nem mar, não há sol e nem céu.
Só o basáltico e o impenetrável - mistérios ancestrais...
É a canção de teus órgãos de pedra -incompreensivel,muda
Assim vou submergindo, nessa gigantesca cratera,
Onde a única coisa audível é o gotejar das eras,


Sorrio calma para a ameaça clara das tuas estalactites;
Contemplo altiva a maciez de teus espeleotemas;
E a implacável determinação que teceu tuas cortinas,
parecem a mim - e cada vez mais- um tipo raro de poema,
Em que emergem catedrais,candelabros,orquídeas
E a meus pés, rebordado, surge um chão de estrelas
Enquanto meus olhos aos poucos se acostumam...

Agora, vejo alguma beleza em tuas flores de pedra
E sinto algum conforto em teu silêncio assombroso
E a vertigem que me traz contemplar tuas alturas
E o pressentimento de algo feroz, vil, venenoso.
Que se dá e se nega, me persegue e se oculta,
E que me faz te querer de novo, de novo e de novo...
Como uma chama inconstante, bruxuleando plena, em gozo...


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Em busca de um lugar sagrado.




Nas igrejas, há uma novena gravada
Que não permite que você pense em mais nada
E nas praças, os pastores vociferam pragas
Para as ovelhas desgarradas
Não há silêncio nas estradas
E as florestas, a cada dia que passa, mais perigosas
Restam os shoppings...onde não há paz
Falta o necessário "trago" de escuridão.
Em verdade, nunca havia pensado
Que talvez o que nos aparte ainda mais de Deus
Não seja o desgosto Dele, nem alguma maldição,
Mas uma teia - feita por nós mesmos - de luz artificial.
Eu caminho do início para o final
De ruas desertas que não vão me esconder...
E dou voltas no labirinto de lojas,
sem saber muito bem onde ir...

Qualquer um que transpassa a paz dos corredores
O tempo milimetrado dos elevadores
O panóptico vítreo violando os jardins,
E na frente dos prédios, das escolas,das fábricas
Há câmeras que roubam a imagem exata de tudo
O que não for crime.Enfim, nada disso é ideal,
Para quem quer que quisesse chegar a Ti,
Parece que a cidade foi planejada
Para que nunca possamos estar sozinhos,
 -sem sermos vigiados, interrogados,julgados-
Frações de segundo divididas ao quadrado
Enquanto os anjos contemplam com pena
Nossa solidão...

E se eu pudesse estar em casa
E se eu pudesse transpassar essa casca
E se eu tivesse como criar asas...
Ou enrolando-me absoluta em torno de mim mesma
Encontrar aquele caminho que leva à Artéria Perfeita

Então teria alguma condição
De erguer minha súplica numa oração
Que me arrebatasse deste mal de estar
Presa do destino que nunca quis...


domingo, 4 de janeiro de 2015

Poesia








Olho d'agua, nascente
Gota cristalina caindo no Rio Sagrado
Que nunca saciará a sede
Ferocidade indômita,entregue e temente
De um transe solitário e consentido
para a incorporação profana
-encantamento e delírio-
da vasta imensidão
de um universo desconhecido
ao deserto insano de si mesmo
Um caminho...
De luar e flores,estribilhos...


sábado, 3 de janeiro de 2015

Simpatia de Ano Novo






Entranhar as mãos pela terra
- Não gosto da terra-
Cheiro de morte, calor de febre
Negror de esterco sob as unhas
Sangrenta...a terra é sempre sangrenta
Como a Maria no Espelho
Do lado onde não mais importa
Assim como não importam as mãos doloridas
Pare de cavar quando sentir a dor do primeiro corte
E um gosto de telha sob a língua
Viscosidade escorrendo pelos dedos
Perceba...
A pele úmida da casca que se desfia
Até chegar no centro...mais seco
Quebra! Quebra! Quebra!
Deixa estalar como lenha na fogueira
Das nossas pequenas inquisições quotidianas
Queima! Queima! Queima!
Abra agora as mãos e veja
Derramar-se pelas palmas ásperas de sujeira
O perfume fresco, leve e ardente
Centelhas de esperança e de sonho

Após...acender uma vela!

E jogar de volta ao mar  uma flor
- que nunca foi dele-
Guardando em si as sementes...