sábado, 31 de janeiro de 2015

On the darkness...




-Avistar os teus portões é algo trágico,horrível!
Por isto mesmo, talvez, se fez num instante irresistível
E vi-me descendo, um a um, os degraus da fatalidade
Eu, que até hoje, só soube amar pelos abismos
Sempre em quedas repentinas e vôos colossais
Reerguendo-me sempre, mais inflamada e ardente...
Ia agora,como a pluma, lenta e leve, leve demais...

Presa dessa minha ânsia,curiosidade fatal,
Tremendo sempre,no frio sentido do pesar,
Eu sigo em frente,pois o saber é mortal,
E isso sim é humano: o desejo, o sonhar...
Sentindo,sem que nunca me pudesse tocar,
um presságio- eis minha própria lápide em pedra
Que me espera e me quer, prestes a desabar!

Teus salões se abrem bruscos e sem véu
aqui onde não é noite e há escuridão demais
Não há lar e nem mar, não há sol e nem céu.
Só o basáltico e o impenetrável - mistérios ancestrais...
É a canção de teus órgãos de pedra -incompreensivel,muda
Assim vou submergindo, nessa gigantesca cratera,
Onde a única coisa audível é o gotejar das eras,


Sorrio calma para a ameaça clara das tuas estalactites;
Contemplo altiva a maciez de teus espeleotemas;
E a implacável determinação que teceu tuas cortinas,
parecem a mim - e cada vez mais- um tipo raro de poema,
Em que emergem catedrais,candelabros,orquídeas
E a meus pés, rebordado, surge um chão de estrelas
Enquanto meus olhos aos poucos se acostumam...

Agora, vejo alguma beleza em tuas flores de pedra
E sinto algum conforto em teu silêncio assombroso
E a vertigem que me traz contemplar tuas alturas
E o pressentimento de algo feroz, vil, venenoso.
Que se dá e se nega, me persegue e se oculta,
E que me faz te querer de novo, de novo e de novo...
Como uma chama inconstante, bruxuleando plena, em gozo...


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Em busca de um lugar sagrado.




Nas igrejas, há uma novena gravada
Que não permite que você pense em mais nada
E nas praças, os pastores vociferam pragas
Para as ovelhas desgarradas
Não há silêncio nas estradas
E as florestas, a cada dia que passa, mais perigosas
Restam os shoppings...onde não há paz
Falta o necessário "trago" de escuridão.
Em verdade, nunca havia pensado
Que talvez o que nos aparte ainda mais de Deus
Não seja o desgosto Dele, nem alguma maldição,
Mas uma teia - feita por nós mesmos - de luz artificial.
Eu caminho do início para o final
De ruas desertas que não vão me esconder...
E dou voltas no labirinto de lojas,
sem saber muito bem onde ir...

Qualquer um que transpassa a paz dos corredores
O tempo milimetrado dos elevadores
O panóptico vítreo violando os jardins,
E na frente dos prédios, das escolas,das fábricas
Há câmeras que roubam a imagem exata de tudo
O que não for crime.Enfim, nada disso é ideal,
Para quem quer que quisesse chegar a Ti,
Parece que a cidade foi planejada
Para que nunca possamos estar sozinhos,
 -sem sermos vigiados, interrogados,julgados-
Frações de segundo divididas ao quadrado
Enquanto os anjos contemplam com pena
Nossa solidão...

E se eu pudesse estar em casa
E se eu pudesse transpassar essa casca
E se eu tivesse como criar asas...
Ou enrolando-me absoluta em torno de mim mesma
Encontrar aquele caminho que leva à Artéria Perfeita

Então teria alguma condição
De erguer minha súplica numa oração
Que me arrebatasse deste mal de estar
Presa do destino que nunca quis...


domingo, 4 de janeiro de 2015

Poesia








Olho d'agua, nascente
Gota cristalina caindo no Rio Sagrado
Que nunca saciará a sede
Ferocidade indômita,entregue e temente
De um transe solitário e consentido
para a incorporação profana
-encantamento e delírio-
da vasta imensidão
de um universo desconhecido
ao deserto insano de si mesmo
Um caminho...
De luar e flores,estribilhos...


sábado, 3 de janeiro de 2015

Simpatia de Ano Novo






Entranhar as mãos pela terra
- Não gosto da terra-
Cheiro de morte, calor de febre
Negror de esterco sob as unhas
Sangrenta...a terra é sempre sangrenta
Como a Maria no Espelho
Do lado onde não mais importa
Assim como não importam as mãos doloridas
Pare de cavar quando sentir a dor do primeiro corte
E um gosto de telha sob a língua
Viscosidade escorrendo pelos dedos
Perceba...
A pele úmida da casca que se desfia
Até chegar no centro...mais seco
Quebra! Quebra! Quebra!
Deixa estalar como lenha na fogueira
Das nossas pequenas inquisições quotidianas
Queima! Queima! Queima!
Abra agora as mãos e veja
Derramar-se pelas palmas ásperas de sujeira
O perfume fresco, leve e ardente
Centelhas de esperança e de sonho

Após...acender uma vela!

E jogar de volta ao mar  uma flor
- que nunca foi dele-
Guardando em si as sementes...