quinta-feira, 26 de março de 2015

Mentirosa








Não quero ligar para você
Não quero te ver
ter que pedir
esquecer
lembrar
Não quero...

Quero...

Mentir, distrair, destoar
Eu quero sentir gritar a nota dissonante
da palavra em queda livre, abismo abaixo
Eu quero trair a palavra dada
Eu quero vendê-la
nas esquinas da lógica consagrada
Para que trazer a peito o que
já não toca, não sente?
Se posso dar início ao massacre
Moer as certezas de pancada
Na encruzilhada das dádivas relativas
Da memória Outra
E fazê-la sangrar, vermelha de vergonha
Esgarçar com as mãos todo
o bom senso comum
Até que essa realidade
Essa Verdade
Que maltrata
Fuja, descalça e desgrenhada
até perder-se e sabendo-se inalcançável
Volte a dançar pelas florestas escuras
Ao redor das fogueiras,
Pelas sombras oculta...

segunda-feira, 9 de março de 2015

Madrugada




- E então, o que me dizes?
- ...
Então Ela ouviu...Risos nas horas acidentadas da noite, estendidos pelas calçadas como gatos espreguiçando ao luar.
O inconsolável pranto do amor abandonado, que não conseguirá mais voltar.
Os fios de alta tensão susurrando seus segredos de morte sob a tempestade de raios.
Uma larva opalascente devorando a alegria e o sonho para tecer um fio de maciez e veneno.
Inquebrantável.A queda e o estilhaçar repentino e surdo das promessas quebradas e os cortes finos e dolorosos de quem irá recolhê-las. O crescer lento, inexorável e insensível de novas linhas nas mãos, como galhos de trepadeiras, sufocando toda a escolha. O cair de uma lágrima nascente de um novo oásis. Uma cidade adormecida, sonhando a si mesma, enquanto cada cidadão tenta, a sua maneira, aplacar sua febre em orações de dor e disciplina de aço Uma menina maltrapilha que, acossada pelos vizinhos, pula o muro e é dilacerada pelos cães. O nome da menina é Liberdade e quem mais poderia defini-la?
Uma mãe reinventa a canção de ninar de infância para seu filho perdido. Um punho se ergue e num grito selvagem, tudo explode pelos ares...
. Ela leva as mãos aos lábios instintiva e deixa gotejar
O riso.O pranto, O segredo. O Estilhaçar. O crescer.O brotar.
O delírio de febre,
A cura e a caça,
A canção e o inelutável.
 E a Morte.
Sim, há morte por todo o lugar...