segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Uivando para a chuva.



Porque muito antes desse tempo,
teu corpo me abraçava contra as pedras frias
juntos e nus estávamos, todos nós, enquanto eu amamentava
os órfãos de caça, filhotes e crias...cobriam-me de peles.
Porque houve aquele momento em que acendemos a fogueiras
à luz da lua
E, em outras noites, dançamos nuas e sós, afirmando a frágil
chama em uma noite eterna...contra maldições e pragas.
E fizemos amor nos campos, em nome da terra.
E fizemos amor nos templos, em nome do povo.
E fizemos amor nas guerras, em busca da vida.
Corremos juntos das balas, encontrei abrigo em teus lábios em sangue.
E torturada, forcei-me a esquecer teu nome.
E por tudo isso, este também é meu eclipse
E o vento que sopra na chuva, pelas frestas do tempo
uiva em retorno...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Manual de Jardinagem I - As flores do medo.

(uma óbvia homenagem ao "meu preferido" Charles Baudelaire)


As flores do medo só crescem
em solo pedregoso e azedo

Prescindem
de adubo, carinho e segredos

Tem sempre
as mesmas sombras e características

Não tem perfume
suas pétalas são escuras e soporíferas

Desabrocham, não raro,
Por apenas um instante ou dois momentos

E se recolhem tímidas,
Inclinadas para si, como num pressentimento

Secam avaras, em frutos
Sempre pequenos, feios e espinhosos

Mas pródigos
Em sementes negras, de um mal venenoso,

Com raízes fortes
São narcóticas,e quase sempre, letais.

Gostam de chuva,
De sombra, e tornam seus pesadelos reais

São ornamentais e utilizadas
na moda e na decoração, culinária e paisagismo

Pois tem, quase sempre,
um toque de classe, um sabor que lhe escapa, um "quê" de abismo...

Crescem aos borbotões
nas paisagens errantes, em tudo o que sangra e corte

Trazem beleza e contornam perfeitas
Os sonhos esquecidos e os jardins da morte!














quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Ao menino Aylan.





O mar acalentou nossas promessas
E ocultou nossos tesouros

Alimentou nossos filhos e ambições
Dando-nos os seus próprios.

O mar foi nosso caminho, quando
Quando quisemos ir mais longe

Quando quisemos estar perto
Nos deu novos horizontes

E lambeu nossas feridas,
Cicatrizou a dor e o corte.

E se foi nosso inimigo,furioso,
Nos trouxe a morte suave.

Porque o mar ama a coragem
e só se agrada com a verdade...

Bebeu, à largos goles,
lixo, ingratidão e óleo.

Tolerou, por tempo excessivo
sondas e aterros, armas e petróleo...

Inspirou nossos poemas,
segredos,amores,canções.

Riu de nossos brinquedos
Sorriu com nossas devoções

O mar até foi parteiro
De algumas de nossas crianças

Mas agora, parece que sente
Esgotar a paciência que cansa...

Recolhe em seus braços o menino
Que em desespero de vida se afoga

Talvez até para o mar
Isto seja a ultima gota d'água

E para a dor que sentiu,
Não existirão jamais palavras

O mar - sabe-se imenso -
Mas que a morte não se vence...

Embala o corpinho, devolve-nos
"-Toma! O horror que a vós pertence..."

E agora sua alma repousa
No lençóis do mar em sonhos tão lindos...

E nós, escravos que somos,
seguimos como mortos, ainda que vivos!