segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Caligrafia







Desenhava letras avulsas, com o indicador molhado de tinta,
Riscando a brisa
Com esmero e carinho, dava o laço a letra no papel
Criando novas assinaturas aos amigos imaginários
E mais tarde tentava copiar a letra dos pais
Rebuscadas e intrínsecas a si mesmas, lhes escapavam
Como peixinhos n'água clara, escorregadias e brilhantes

Mais tarde, fantasista, criava letras para nomes e sobrenomes inventados
Falsária de tantas assinaturas
Não encontrava mais sua própria maneira
Os espaços entre as letras carregados de hiatos
Tão variados quanto exigia a pressa...
E as palavras, que lástima!
Ora, empinavam com raiva indômitas
E já no outro lado desciam o abismo
Como penas caindo no espaço
Como pedras explodindo na água
Explodindo em tinta azul
Manchando a mão vermelha
Trazendo um relevo negro ao outro lado da página...
A caneta, desconfortável, nunca aquietava
Duas vezes do mesmo modo
Na concavidade da mão, que também rebelava-se
E tentava seguir aos ditames da situação
Que logo se perdia de vez.
E era assim mesmo que sua palavra cheia e plena,
no mesmo parágrafo, minguava, até que desaparecesse
E num semi-círculo tornava-se nova letra
Um ponto escuro no papel, que poderia ser
um "s" ou um "a"
Tornava-se ponto final, apertado na margem
De uma história que não encontrava maneira de continuar...

Até que um dia, voltaria a desenhar
E teria não só uma graphia, como todas
Mas outra ainda, muito diversa,
Incompreensível, porque única, exclusiva e nua
Finalmente sua...
Será

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Cassandra.



Atravessei pelo túnel apertado,de pele negra
entorpecida,acorrentada.
Tocando-o podia sentir nas mãos o cheiro
de sangue seco na terra úmida, e o relevo
ósseo das costelas -  veios de marfim traçando suas trilhas-
iluminando como setas a escuridão fechada.
De quando em quando sentia a concavidade
dos olhos pétreos fitando o nada.
E um não sei bem o quê me arrepiava a nuca,
Eu não queria adivinhar o que era mesmo
que batia suas asas pelas minhas orelhas
Avançava...
Uma luz, e o velho índio
Banhando-se calmo na alvorada
"-Passei mesmo..."
-"Passara..."
Sua pele era outra,
papel de seda vermelha;
marrom profunda;
muito amassada...
Dependendo do ângulo
que  se visse através dos olhos d'água -
barrenta escuro poço de mistério -
Sedento de alegria e lamento,
e perpétuo esquecimento.
As palmas também, rasas d'água
Deixavam ver os caminhos não trilhados
Eu bebi e percebi que sua sombra
Era ainda mais negra ao sol do meio-dia...
Em toda a jornada - léguas de vales calcinados,
minas esquecidas, labirintos de estanho, oásis de sonho e vendavais de chama-
foi isso o que mais me surpreendeu...
A dança de um Senhor da Guerra no Vale da Morte...
E eu fugi para a ágora,
me machucando pelas escarpas das gentes,
Entorpecida nas ameias das assembléias,
Sangrando, contemplei o silêncio e o vazio,
Em meio a barricadas,
Era eu sob a máscara, inflamando multidões em marcha,
Fui eu quem fugi da cavalaria, sob uma saraivada de balas
Seguimos, de braços dados, e nunca fui tão eu mesma...
Mas de tudo o que quis e teria sido,
já não há mais nada.
Sentada na cobertura ampla e aberta,
Contemplo o poente sanguíneo, e o mar revolto em seus múltiplos
véus de cores subsequentes,opalascentes, indefiníveis...
emoldurados pela floresta decididamente - vibrante e clara -  verde
num curto-circuito sagrado,
Com os olhos voltados para os céus
Ainda tento ler o traçado dos urubus,
Em seus círculos de ar...




O pássaro.



O amor é um pássaro
que persegui por entre corredores de vidro
na determinação de salvá-lo...
O amor se debate, entre as janelas mais altas,
sem ver as outras, abertas,
O amor me escapa, por entre os dedos
tamanho meu medo de machucá-lo.
Me escapa, com suas patinhas ligeiras,
por uma brecha invisível
da transparente porta,
Em um prédio tão translúcido - pedra e prata,
O amor, sabia-laranjeira - se destaca
Mas eu desisto,
Que aja a sorte
E salve ele a si mesmo
E talvez amanhã, me desperte,
Um suave trinado gentil
nesse vazio tão imenso...


Ao sair...





Quando o ultimo sair, apague a luz
Eu eu...eu permanecerei aqui
Trancada, no escuro, sozinha
Encolhida no canto mais distante
Do meu sonho
onde ninguém me viu,
nem soube, muito menos esqueceu...
Eu esperei, até ouvir o carro se perder
nas marginais do silêncio
confundindo com o ronronar estranho
do metal e do concreto, o urbano,
enrodilhado em si mesmo,
sem adormecer porém...
Senti que era minha vez
Arremessei às paredes cascos e sombras
Deitando ao rio estátuas, cacos e sobras
Acendo as tochas
Acendo a nicotina do prazer  em fadas verdes-azuladas-garoupas,
Liberto meu ódio, enovelando-o em fumaça
Emborcando galões de gasolinha
Em piso negro, teto espelhado em luz negra
Eu danço, chutando para os ar, cacos e gotas
Traçando rios de Veuve Clicquot
Em todos os cantos,
Moet Chandon em suas respectivas velas
de vulcões em cascata...já prontas!
E já fui,estarei indo, serei
O que enfim me seja algo que importa
Prometo
Deixar as mesas em cima das cadeiras
E ao sair, acender as chamas...