segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Tabagista.








Trago
ao peito
com a fumaça - inescapável
gotas do mal quotidiano

Má sorte
Fadiga
Desengano

Mato no peito
Carrego dentro de mim
um cemitério
E é tanto pranto
Que se o que eu soprasse
De volta- em novelo calmo-
Fosse lágrima
Logo inundaria
O céu inteiro...

Adio então a sina
De morrer afogada...
E o céu dilui em azul-ciano ou
-cinza-prata, meus devaneios
de amônia e cianureto,

O que corre em minha garganta
Em forma de densa toxina
É a palavra áspera e o tapa
Que não estala,
mas que me vem a mente,
e que não lanço,
mas que me laça,
E me fustiga

É o basta que não dou!
É o apelo que adio,
É o ódio com o qual não posso
A raiva que contida no peito
num embaçamento do cenário
vítreo - onde não escrevem nem meus dedos-
por não querer mesmo fazer-me inteligível,
traduzem-se num único suspiro
de veneno.
Me conforta a mágoa clara que sereno.

Meu abrigo de fios macios
Trançado em algodão,
entretecido na dor das mãos calejadas
para minha própria dor...
logo viram cilíndricas almofadas
Onde posso me recostar,
e pensar em lânguidas vagas,
sonhar em pulsar rítmico e,
aquecida neste enleio manso
tecer breves considerações
àqueles meus monólogos íntimos.

E é isso o que eu trago
o orvalho da manhã em
meu refúgio portátil
um lar que levo no bolso,
onde apertam meus sapatos,
Com meus dentes tingidos de lama
Sigo sorrindo flores,
uma capa de invisibilidade bordada
numa suave civilidade,
Onde pode correr livre aquele meu
eu-selvagem
Porque trago para dentro da mente a mata,
Porque nunca fui por inteiro domesticada
E não me deixo caçar. Sigo para a escuridão
Deste meu silêncio...
Ah, o silêncio,
O mais vilipendiado
Dos direitos.

Eis que agora, é também um imã,
Que atrai para mim o dissonante,
o agressivo,
o intrometido,
o fútil e o vazio.

Se o cheiro do meu hálito
-alcatrão e inseticida-
Lhe maltrata o olfato
Não queira saber o perfume
que tem a sua hipocrisia.
Que com ela oblitero...

Se o convívio com meu vício
Lhe põe em risco
Que diria eu do seu caráter...
E eu me pergunto
Se seria o mesmo tanto
 que me enoja!

Eu sou tempestade
Transmutada
- por livre vontade-
Em brisa. Diluída em cinza.
Acho que merecia sim, aplausos
Senão por nada,
Pela iniciativa de penhorar
meus últimos dias
Só para contigo conviver
(como se eu tivesse alguma escolha).

Se eu tivesse mesmo
Escolheria morrer!
E no fundo é um pouco isso
Fumar mata dizem e eu
Acho que sei que não sei
Mas confesso que muitas vezes
só  por saber fumar
Eu não matei.

Enfim, só quem sabe mente,
Ou escolhe o que vai dizer,
E apesar de não parecer,
Eu quero acordar num dia,
Em que o sol brilhe sem que eu
precise desfalecer meus horizontes
e esmaecer,num sopro, minhas mil vozes,
e poder cantar...
Viver este meu inalienável direito
ao silêncio
Bebendo à alma de tudo o que é tão
tímido, e para quem tudo sente e importa...

Fica então o aviso
Desse meu improviso
Eu não fumo o vazio
De uma existência morna
Muito do pelo contrário,
Em mim tudo transborda -
inclusive a paciência -
Então,
Não me compre pelo seu preço
Que não me acharam na liquidação
Por favor, não se faça de louca!

Em nome da minha saúde
Lembre-se de não me ajudar
E na dúvida (de eu querer parar)
por favor,
Cale
A
Boca!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Strip-teases...



Quando passa a mão em frente ao rosto
Para ocultar o olhar,
já sabe das unhas
a promessa
Já sabe da maquiagem
mil cores e de cor sem saltear
todas as mentiras (até agora infinitas)...
Fixa na presa
Não sabe bem o que vai encontrar
E não se importa,
Tratou disso bem antes
Arriscar, arriscar e criar
Para destacar as peças
(trapos multicoloridos de seda)
Que vão suaves ao chão
Plumas de perfume ou penas de faisão
É anunciação
Pede calma e atenção,
Como é próprio do perigo,

E é sem nenhum ruído que se espalham pelo chão
Confissões insinceras, algumas de segunda mão,
Rodopiam pelo ar as mãos, flutuam as palavras,
Que escondem, que encerram, atraem
Desejam
Corre, pelos dedos, enredando nos cabelos,
As tintas da memória,
delírios plangentes dos sentidos entorpecidos...
Uma hemorragia desrazão,
Em redemoinho de imagens
A força da corrente,
As luzes dos refletores
Brincam de esconde-esconde
E revelam-se
No palco...
no cenário,
na tela,
desfolha - por-folha...
E ela rodopia
Improvisa
finge que implora
Excita-se,
Ardente chama,chama,chama
Sua própria dança
Entende
Sabe-se que não será reconhecida.
no que mais se reconhece,
Mas a quem não sabe do seu avesso
Nada importa.
Dançam as sombras, risadas em zombaria...
Ela volta-se, voluptuosa
Avança e morde finalmente
Cerra a angústia entre os lábios
e deixa escorrer pelo queixo
A ironia...

Não, não há ninguém na sala...
Esta sozinha.
E não é dia de ensaio, não senhores
Nem mero exercício
Só o prazer do espontâneo,
Só sensível,
O que a possui agora é algo só por ela
Possuído,
Parece que o "clímax" esta mais próximo
Ela se assusta ao "click",
mas era só a maçaneta
E enquanto isso, lá fora,

Se olhares pela janela
Consegues ver as crianças
Correndo atrás das borboletas...