quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Os vendilhões do templo...






Em tapetes estendidos pelo chão 
Vimos por meio desta entrada
comerciando com nossas certezas...
Por algumas moedas,
o pão,
o café,
um desdém travestido de apreço
mas a maior parte escambo,
por angústia, essa areia negra,
sempre troco pela mais fina
que entra pelas narinas
congestiona os pulmões
e entope as artérias...
Mercadoria abundante
E cada dia mais cara,
Pois é ela que paga
pelo sexo,
pelo que é certo
e pela sexta...
paga os boletos,
assegura as férias,
o mau atendimento,
e garante a descendência
enquanto você ascende ao túmulo
vendido, trocado, partido
por nada!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Dia da Justiça

DIA DA JUSTIÇA - 8 DE DEZEMBRO
Ontem aconteceu uma coisa muito triste. Eu ri da Justiça. Explico. Saio do trabalho, caminho no sol uns 15 minutos para esperar um ônibus de horário errante que me levará ao centro da cidade. Então um rapaz de vinte e poucos anos, coque samurai, barba grande e crespa e olhos muito grandes estica seus dedos fininhos para mim e pergunta:
"-A senhora sabe se hoje os ônibus funcionam em horário de feriado?"
E eu, tentando entender...
"-Hoje é feriado...
"-Sim, hoje é o Dia da Justiça". Ele responde, com levíssima pitada de orgulho.
Eu começo a rir.Foi espontâneo.Quase natural.
Em menos de um segundo lembrei de Renans e Eduardos, da votação do impeachment de Dilma, dos pronunciamentos de Temer, dos meninos apanhando na ponte por nada e por tudo, das risadas sobre a menina estuprada, sobre o avião que caiu, sobre a morte do menino da ocupação do Paraná...
Justiça?
Risadas
O rapaz me olhou espantado. Seus olhos grandes pareciam até um pouco magoados.
Parei.
Caí em mim.
Eu me refleti em seu espanto.
Porque me lembrei da minha formação infantil e escolar, sempre tão pautada nos princípios da honestidade. Me lembrei da adolescente que fui, brigando sempre e tanto por justiça social. Me lembrei de meus (ambos) empregos, pautados em ética e legalidade. Da frase de Rui Barbosa - "De tanto ver triunfar a iniquidade...". De alguns homens e mulheres que conheci em toda a trajetória que se batem na defesa dos mais vulneráveis.
Flash instantâneo
de uma vida em um segundo.
O ônibus chegou, para meu alívio.
Naquele momento, eu queria que ele me levasse para um lugar em que a justiça não fosse algo como uma piada.
Percebi que 2016 deixou uma pequena cicatriz, que será para sempre como um sorriso de dor...

sábado, 3 de dezembro de 2016

Taquicardia.

Gota a gota
teu amplexo
me sufoca
E o que assusta
É que eu não temo...

Pouco a pouco,
Vem brotando
Vem crescendo
Como mato,
sem propósito
meu desejo...

Eu risco a luz
no fundo negro
para trazer novos contornos
para mim mesmo
E a cada amanhecer
sigo tecendo,
 a linha vermelha com que
vou reforçando as amarras
dos meus cadeados...
Esse portão precisa ser mais bem fechado...
"-Quem dera fosse a força,
trazer à forceps
um canto, uma esperança, um alento qualquer
...quem dera!"

Mas não!
Cartografias de ilusão,
Mapeando meu tesouro,
rotas alternativas em dunas de sal
Não sei se quero mais viver, então...

Anoiteço!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Briga besta!

Que coisa bem tola essa briga
De lobisomem com bruxa
De duende com saci
Se todo mundo que um dia
De abrigo necessitava
(e até quem nem precisava)
Encontrou carinho e comida
E fez daqui sua morada
Me diga, brigar para quê
A quem você quer convencer
Que valorizar o que é daqui
Se resume em recontar o antigo
e rejeitar o Halloween?

Outra coisa, até onde eu saiba,
bruxa, feiticeira,mandingueira,
é coisa que por aqui não falta!
(talvez o que não existam...sejam fadas)
Mas nem isso vou discutir...
Terra de desterrado e "corrido";
de cristão-novo e de escravo;
De pajelança nativa;
E de tolos desavisados;
De que O que mais tinha por aqui
era gente com medo da fogueira,
e que por isso, nunca voltou!
E ficou por aqui, mesmo estrangeira,
Contam até que um dia
A Inquisição nos visitou
E desistiu - disse ela -
Pela obscuridade...
Eu ainda acho que ficou tímida
Com a grande quantidade
De "quizombeiros" que encontrou!
Então, larga mão de besteira
E celebre como quiser
Mas não duvide que se ainda há
um país...em  muito isso se deve
Á força e a magia da mulher!

Quer contar quantas bruxas há?
Então eu vou começar,
Pelas mais comuns de se encontrar
Depois você diz para mim
Se eu não tenho razão...
Tem a clássica velha e feia,
Que assusta a criançada!
Ri histérica e fura bolas,
Sempre tem fama de malvada!
Dizem que rouba a embarcação...
Que enreda crina de cavalo
Que vira mariposa a noite
E nos bebês põe maldição,
E tem a louca da aldeia
E tem a louca dos gatos
E tem a louca da rua
E tem a louca do mato
Tem louca para todo mundo!
Louca para todos os gostos!
É tanta louca nesse lugar
Que dá até um desgosto...
Tem a versão boazinha,que reza,
-essa é a  benzedeira-
Tem a versão "tia solteira",
que sempre sabe simpatia,
Tem a mais moderna,das cartas,
cristais e da astrologia,
que fala em "fitoterapia."
Não muito diferente da herbateira
que vende suas folhas na calçada,
E se bobear muito
A procedência até é a mesma...
E olha que eu ainda nem falei,
De uma outra ainda mais recente
que fala lingua estranha
E dizem que faz profecia
E que não gosta da irmã
Que fala outra língua,
E na roda da dança gira.
Mas não tem muito problema, não...
Que quando a necessidade aperta
Todo mundo se dá as mãos...
E ainda faltou falar da que
de todas,é ainda a mais original,
É a que conhece tudo na floresta
E tudo o que faz...lhe é natural!


Você conseguiu contar
Quantas bruxas já dá para somar
Entre as que eu contei aí
E você acha mesmo que o problema
E festa de "Ralouí"?
Ou será que não é porque "a bruxa
jamais deixarás viver"?
Seja na sua fantasia, no calendário
ou em paz!
Então, fala para mim a verdade
Quantas você conheceu
Quantas já lhe ajudaram
Quantas vezes era você
Outras tantas até...eu!





quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um tipo estranho de luto...




Para cada dor, uma lágrima,
uma brecha por onde escapa,
um raio de sol,
uma flor,
para onde o olhar escapa
Quando já não se quer ver mais nada...

Para cada perda uma história,
e as histórias se sucedem,
em cada história uma canção
se cruzam e entretecem,
o véu que nos encobre e esquece...
uma rede invisível de proteção...

Mas há dores em que não há palavras,
a memória desfalecida,
fundo abismo do nada,
onde a escuridão cria vida
E para esta Dor, não há recompensa,
nem lição, nem salmo, nem crença
como a confirmação da sentença:
"Agora e para sempre pária!"

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Desajustados




Criança parada no pátio,olhando para a dança das sombras
das pitangueira,
tentando adivinhar o dia de amadurecer,
Tantas histórias tristes nos vãos das escadas,
onde habitam os melhores amigos imaginários
e onde escapar das brincadeiras "non sense"
no pátio.
Não gostava de coisa de menina.
Não gostava de coisas de meninos.
Mas via mapas nas mãos envelhecidas,
Bússolas claras que se abriam para
as paisagens pelas cores laminadas e foscas,
que atravessam a janela molhada pela chuva...
Adivinhava outras memórias pelas manchas nas paredes,
Pelas cores - sempre tão outras - de cada pôr do sol,
E rompia crisálidas com o canivete...
Rompantes de choro!
Rompantes de sol!
Protegendo castelos de areia e
Casas de barro, com pequenos animais
de plástico, tampas de garrafa, de caneta, estojos
de batom
E queria reter em si todas as lembranças,
mesmo as que não compreendia...

Criança ruidosa, inquieta, barulhenta,
Do tipo que bate, que derrama, que incendeia,
"Respondona", em busca da verdade,
Segue em frente, pergunta, não acha! Tateia...
Tremulam as vozes, as cortinas, as bandeiras.
Desespera quando se esconde, e quando se encontra!
Gosta de bandos, toca as campainhas,
Deixa cair os potes de bolachas,
Com a bola, despedaça vidros e estátuas
E no "cantinho do pensamento"
Canta desaforos...
Se esconde para beber leite condensado,
Bate o pé, recusa, ameaça...
Faz mais perguntas que não se sabe de onde...
E se vem resposta, já não presta atenção,
de volta para outra coisa, se cala,
Criança sem fé, sem mal, "fogo de palha"
Que estranha!!!
Por vezes, do nada, beija e abraça,
Em outras quer brincar de trabalhar...e trabalha!

Crianças caindo pelos desvãos do tempo,
nas paredes cinzas de cada sistema
Escondidas nas frestas, aguardam o momento
De romper
Ou de quebrar,
Trazendo consigo ainda mais problema...



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ítaca.

"Todo homem precisa de uma Ítaca e um navio".

As linhas da minha vida
Desenhadas em tuas pálpebras
Se nada mais me resta,
também nada mais me falta...

Leio o mapa do meu destino,
Desenhado em tuas pegadas
Enquanto, nus e de mãos dadas
Perseguimos as estrelas...

Batedores das tribos insurgentes
Caçadores dos sonhos em colapso
E o que distrai nossa mente
Mantém o coração no compasso...

E se o acaso nos fez distantes
E o bramir das ondas nos cala
E a tempestade, iminente,
Estrondosa em seus ritos de guerra...

Teu olhar será minha bússola,
Meu braço firme, teu leme
velas enfunadas, seguimos
Seguiremos para o lugar que partimos,
Cavalgamos sós pelas ondas,
O peito pleno da canção que encoraja
A nova música de um mito antigo...
Que toda a sede do mar seja nossa,
"- Para que no estio do  teu peito eu possa,
conquistar por fim o porto e o abrigo..."


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O circo mais caro do mundo!

DESRESPEITADO PÚBLICO!
CUBRO-ME EM DESONRA EM APRESENTAR A TODOS
O CIRCO MAAAAAAIIIIIIISSSS CAAAROOOOO DO MUNDOOOOO!





No circo mais caro do mundo o domador de palhaços grita,bate na mesa, estala o chicote, cobra
a fatura e inverte os papéis: de acusado passa a acusador.
Os palhaços em ciranda querem cantar, mas são tão horríveis os guinchos que soltam que assustam as moças e fazem chorar os bebês.
E quem traz bebês para tal lugar?
Aliás aqui é proibido amamentar...que idéia trazer...!!!
Tudo se faz para atrasar o início da atração principal...e tanto se protela, que a maioria já não conseguirá lembrar o que o fez pagar pela entrada.
E tudo o que fez por ela.
No palco, uns relembram os outros o que foram fazer ali.
E quais devem ser suas falas.
No circo mais caro do mundo, o tempo passa tão devagar que os garçons esquecem de levar o açúcar.
O café é amargo, mas sempre se pode conseguir mais.
Disfarça o gosto.
Desfaz o sono.
Distrai o cheiro.
O cheiro é de baratas esmagadas pelas engrenagens ocultas,
E a roda dentada girando incessante, triturando exoesqueletos, ruge por graxa...
Mas, disfarçado em baunilha, chocolate e algodão-doce, essa cacofonia olfativa até engana...
Enjoativa.
De volta aos atores...lá vem os malabaristas.
Tropeçando nos cordões dos sapatos, não conseguem se decidir entre garrafas brilhantes
e bolas coloridas. O mais divertido de todos, faz girar pelos ares pupilas azuis.
Alguns batem o pé, fazem biquinho e dizem que não querem mais estar na ribalta.
Mas alguém os trás de volta, pelo cabresto mesmo, que a madrugada já se aproxima.
Outros jogam confetes,riem e estradulam suas frustrações.
São os animadores de platéia.
Se todos gargalham, outros tantos imitam...
Mas nunca se sabe do que estão sorrindo.
Todos gritam, vociferam, rosnam e ninguém se entende.
Outros, choram, choram copiosamente.
Dão vergonha as fêmeas crocodilo, que já se retiraram para suas lagoas.
Seus discípulos há muito que as superaram, e elas não querem virar bolsa na mão das obscuras esposas superfaturadas.
Não há água para os elefantes...cada ego para quem se vira os holofotes é uma verdadeira esponja.
Absorvendo a luz que gira estroboscópica, em fuga.
De costas para a platéia, de frente para um cenário de espelhos.
 A iluminação favorece a maquilagem,
e anula as expressões.
O fogo amigo cria novos contornos e reflexos no gelo seco.
Infelizmente a sonoplastia não ajuda:
lâminas cegas de colheitadeiras em solo arenoso
baterias desafinadas na marcação do surdo,
...e uma sirene estridente, de quando em quando,
anunciando as novas atrações e silenciando as crianças.
Há poucos tigres e leões...mas sobram hienas e focas.
Os engolidores de espadas cospem fogo.
As trapezistas são interrompidas em pleno voo, e estatelam no chão para divertimento geral!
Temos um mágico, é o que fala com clareza e tira algemas da cartola.
Temos também um atirador de facas, que já assassinou todas as assistentes de palco, e hoje
expõe a si mesmo como o homem-cicatriz.
O menor homem do mundo tem uma estatura mediana, é calvo os poucos fios que lhe restam já grisalhos não lhe trouxeram
sabedoria. Por isso, consegue encolher-se até chegar ao tamanho de uma noz.
Seu truque é claro: não tem espinha dorsal...
O globo da morte é a tão propalada voz da consciência, que delata sem pena e sem prêmio.
Apela-se ao regimento para descumprir a lei.
Desapertam-se gravatas.
Arregaçam as mangas...
Inflam os pulmões e...tudo isso para fugir do trabalho!
Aliás  quem mais trabalha é o intérprete, que não encontra mais gesto para fazer entender tanta iniquidade.
Só lhe resta soletrar (e ainda bem que não desenha).
Dá pena de ver sua solidão.
Os piores atores de todos os tempos seguem recitando suas falas.
Vidrados os olhos, entopem as artérias, e com o rosto vermelho gritam impropérios...
O corpo fala, geme, range as juntas, cobra seu preço...
E o show tem que continuar.
Um rolo compressor ladeira abaixo esmagando tudo o que não vê
e que está logo a frente.
Cerram-se os painéis, as cortinas, abre-se pernas,cofres, contas...
E nada acontece!
Tudo permanece como sempre foi e esta!
No circo mais caro do mundo a alegria e o desespero se confundem.
E a platéia, ao fim do espetáculo,
se encaminha sem entender, entorpecida
para  saída, muda e extática,
siga à direita direto até a porta dos fundos,
a uma pequena abertura que as conduz para a escuridão
de toda a sua existência....

terça-feira, 16 de agosto de 2016

E você precisa de ajuda...



"A Roda da Vida" - Imagem constante em monastérios do Budismo Tibetano, mas de autor desconhecido.



Ontem, voltou para casa
O gato e a madrugada em silêncio
Esperava. Era uma salva de palmas
pelo bom proceder,
mil trovoadas que faziam tremer a casa...
Quem conseguiria dormir com consciência tão
cansada?
E você precisa de ajuda.

Um laço que ata o nó no sapato,
aperta a gravata, desfaz a lã,
Mais um botão que prego e o
supermercado. A gente segue
assim, emendando...
Correndo, lavando, polindo,
trançando correntes e cadeados.
O abandono também é um muro, só que
impenetrável.
E do lado de dentro do peito
ninguém esta seguro,
E você precisa de...

O dia amanheceu tão lindo!
Céu radiante, sol, e é claro
Que logo a vida passeia vaidosa,
exibindo-se para as vidraças.
Sem graça, assista pela janela
As crianças que correm pela praça,
mais um corpo estendido na estrada,
mais uma menina grávida,
É tão sério como tudo passa...
E você, precisa...

O gerente do banco liga,
"- Os juros baixaram" - é uma piada?
Queria pedir música no Fantástico
Em 3 anos, 3 aluguéis em atraso...
Da insônia ao trabalho
E do trabalho ao insônia
É daqui a pouco,mais um fim de semana...
Em que o amor sobe pelo telhado, e canta!
E você,...

Com suas próprias mãos ergueu um castelo
Mesmo sabendo que elas viriam - e como vieram!
É tempo de recomeçar tudo de novo,
A terra esta nua, os cavalos no pasto,
Coloque para dançar uma nova música...
para animar nossa Semeadura - o enterro dos gafanhotos...
E...









segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pescadoras



-Queria saber de quem é a foto, quem souber favor informar a referência.Extraí deste site aqui:http://www.leiaecocentral.com.br/pontal-do-parana-ira-reunir-pescadoras-para-debater-sobre-direitos-previdenciarios/


Pescadora...
Estendida em uma solidão dormente
Ofereço minha pele ardente
Ao céu e ao mar
Infinitos...

Sem escolha...
Sei que vou voltar,
quando sentir o pesar repuxar
E na língua o gosto do sal
Eu que sei da monção
Que esta vindo!

Estender  a rede,
E trazer à tona a manhã
Com sua irmã,
Mistérios do mar e
contos de assombração
Para teu irmão
Trazer as mãos cheias
De calos ao cais,
Como nossos pais,
Fazer uma canção de orar
por nós
Como nossos avós...

Meu silêncio
cerrado em concha,
Nos costões afiados
Do teu sorriso!

-Sonhos de prata,
 alegres pelas águas,
 dançando deslizam...


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Blues do Demônio Perdido



Para uns eu sou o Caminho
Para outros, um Abrigo
Mas não passo de um triste
Demônio
Perdido

Por favor, escuta o que eu digo...

Quando minha mãe ia às compras, na Avenida Redenção
Ela sempre olhava para os lados
Me carregando pela mão
E mesmo assim, tudo se foi,
Eu caí, e nem sei como,
Deslizando pela mente
Dessa moça demente
Num looping de ilusão,
E agora...
Esta muito iluminado aqui dentro
E chove muito lá fora...

Por favor, escuta...

Eu não reconheço suas ruas
Eu não entendo o seu padrão
Seus valores me são estranhos
E por que o que vale tanto...aqui é tão pouco?
Por que o que é tão pouco vale tanto?

E se eu falo só a verdade
Aí mesmo que não ouvem o que digo
Dizem de mim que sou feio, sou louco, sou pouco,
Sou lindo...
Querem que eu pague as contas, trace as apostas, sorria e
sofra junto, como fazem os bons
Amigos

Porque para uns eu sou todo mau,
Para outros, só vacilo...
Mas não passo de um seu criado,
Pequeno demônio
Perdido...

Em um dia ensolarado nas avenidas largas
Quando minha mãe foi ao mercado, eu quis espiar
as prateleiras
Eu quis que por um momento ela não mais me visse
Esse momento é agora a minha vida inteira...

Não consigo encontrar o caminho de casa,
Ninguém pode me ajudar, nem escuta o que eu digo
Não sei em que momento, arrancaram minhas asas,
Onde esta meu tridente?
Onde as chaves caíram?

Um atraso de vida
Um porto distante
Uma letra morta,
Um tipo escuro de diamante
Uma via de descaminho...

Porque para uns, eu sou um tipo de engodo
Um tipo de oásis na zona de conforto,
mas não há quem, de verdade, se importe comigo
Um menino ferido
Esse demônio
Perdido...







sexta-feira, 1 de julho de 2016

Quasar






Descobri na rocha,
teu peito,
um céu de azul impossível...

Mas eles dizem que o produziram
em laboratório
e, portanto, já o tinham visto...

Do perfume da minha pele disseste,.
Alcaçuz, pétalas de jaspe, açucena,
pau-de canela, caixa de costura e zimbro...

Enquanto comentam ser assim...algo imaginativo
Silencio na certeza de que a paixão sempre atiça
em todos nós um faro lupino...

Constaste-me que à noite
as estrelas choravam,
enquanto tu nu, só e aos gritos...

Significava a dor de existir num berço de  silêncio
Enquanto eles dizem "são apenas meteoritos"
sentimos nossa canção,quasar pulsando no infinito...

E é por isso, que à verdades tão doutas
Eu ainda me desprendo, vez em quando, leve e solta,
e corro para o abraço ausente de um mistério divino...





domingo, 12 de junho de 2016

Brevemente!





O amor bateu á porta
mas não quis ficar muito tempo,
Nunca fica mesmo,
Mal chega e já anuncia,
Quando vai embora...

O amor é o hiato de espera,
É o menino soprando bolhas de sabão
para depois, correr atrás delas,
E elas mesmas, amor, se vão
flutuando sobre o abismo,
perecendo em si mesmas
como um elétron-metafísico,
faz se presente em sua ausência
fagulha de toda a luz e existência,
navegando em ondas incertas,
de intrincado padrão
guardando um outro significado
que em si mesmo se encerra
uma piscadela,
um aperto de mão,
papilhos de dente de leão
um raio de sol que invade a cela...

O amor esta
no "não" da menina ao sorriso
no "sim" de Bovary ao opóbrio
e no "talvez", ah, esse "talvez" que pode durar
uma vida inteira...

Ele esteve por aqui
até ainda há pouco
E ainda esta, onde já não se enxerga,
Pois ontem como agora
O amor nunca "esta" nem "é"
Mas aflora...
E como pássaro, recolhe-se
E troca as penas,
E só na noite mais escura
ouvimos sua canção serena!





terça-feira, 10 de maio de 2016

Uma noite sombria...



Ela, da raça ancestral dos primeiros dias desta terra,
Canta seu suicídio mudo às estrelas no fundo da floresta...
Sua alma foge da escravidão, e lança-se aos céus
Ainda a tempo de ver...

Ele, fruto imberbe da raiz dos reis humilhados
Afoga-se em sangue à luz do dia quando cerram seus olhos
Que ontem ardiam de rancor, na mágoa profunda da violência
Ele...sacrificado e estatístico auto-de resistência,
Torna-se em ato e parece que antevê...

Elas, as crianças de todas as cores,
Que transitam pelas ruínas surdas de lugares intactos
Fugindo do frio, do aço, do cansaço
Torporificadas pelo crack, pela cola, pelo álcool
Deslizam suavemente pela mortalha sonho...

Por todos eles se erguerá a voz pela canção última,
No compasso dos Lanceiros Negros, a Dança que invoca
As chamas da luta encarniçada que agora recomeça,

Para que amanhã não seja mais um dia
neste país de tantas terras...
para que não se esqueça
e nunca mais aconteça...






quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Livro de Destino


                                                           (Destino, de Neil Gaiman).




Acaricio a lombada
Faço correr as paginas
Forço a unha do indicador
Em qualquer uma delas
E as imagens se descortinam

Idílicas
Catastróficas
Pétreas
Incertas...

Abro o livro na primeira pagina
Tão apagada...
Ilegível saga
Pouco a pouco
Letras e imagens
Mais nítidas
A música fica mais alta...

Melancólica
Vibrante
Apressa o ritmo,
Trágica.

Fecho o livro
Recomeço
De trás para frente
Faço correr as paginas
Uma a uma primeiro
Depois desespero
E tornam a ser aleatórias
Mais do mesmo
Paginas em branco
Rasgadas...

Arranco a pagina,
Nem leio,
Sei que um dia
Alguém encontrará
A letra de uma música rabiscada
A letra de uma mulher que não assina
Uma sina que se perdeu no mar, em uma garrafa...


segunda-feira, 21 de março de 2016

Alice, Alice...






Passam-se as horas entre o trabalho e o ócio
E os dias entre a excitação e o tédio
E o paradoxo só encontra em seu avesso
Algum remédio

Mulheres partidas perdidas
Homens velhos sedentos
Esfolam a terra
Construindo represas
Pedem sangue
Incendeiam

Tristes tempos...

omsem is a ajetorp

Veja além do seu espelho...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Solidão






É saciar o anseio triste das calçadas
E receber meio que sem sentir o abraço leve das encruzilhadas
Um sorriso aos beijos do sol,
Acenar com um lenço na partida
Enlaçar-se ao vento

Viver os desvarios do silêncio
Calmaria
Que traga medo ao mar
É o que se evita
A canção mais amada
Que não se consegue mais lembrar
Contrair-se
Até o ponto de não saber mais
O que foi
O que fui
O que será
Perdem-se os horizontes, abrem-se caminhos...
E toda a janela aberta é um altar
Onde o olhar se perde,
perseguindo implacável
o que já não sabe querer mais...

Frágil,dolorida, meio insana
Fundir-se as cores, tornar-se instrumento musical,
Bastar-se em si mesma, meio folha,muito animal
E ainda assim perene,secular e mais humana
Pois...
Estar sozinha é negar o abandono
A raiva, a tristeza, o desengano,
Fazer origamis com mapas e planos
Tirar fotos de tudo
E assistir, como à um espetáculo
O suicídio lento das admirações
O fim melancólico das paixões
A areia fina que escorre da ampulheta,
Encobrindo as pegadas e as migalhas
Perdendo a vontade de voltar

E perceber-se certa, em paz, plena e perfeita...
No oásis onde nada te espreita, nem te importa...


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Um enigma.





Uma borboleta
Asas azuis da cor do planeta,
Equilibra-se

Para além da vidraça de estrelas
Pousada na lateral da canaleta,
Que sustenta as Heras que crescem
E desabrocham
Lentas.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Uma pequena fábula!




Então as mulheres e homens do Sol
ergueram-se por toda a parte.
E em toda a parte a Luz brilhou
Por entre suas mãos,
O fogo aqueceu o primeiro sorriso,
Fez-se Arte & Medicina,
Labor e Delícia
Uma canção de júbilo ao astro...

Homens e mulheres do Sol ergueram muros e pontes
Bordaram pedras, teceram templos, feriram as mãos
E seu sangue nutriu a terra
Que linda colheita!
"Nunca mais passaremos fome!"

Mulheres e homens do Sol trouxeram os animais
Tão para junto de si
Que deles passaram a dispôr
Carne, leite, sangue ou amor
Cada um foi chamado e escolhido,
De acordo com seu par...

Mesmo assim, o Homem do Sol conheceu a necessidade
E fez a Guera
E a Mulher do Sol conheceu o Medo,
E fez a Letra
De Letra e Guerra, a filha estranha,
a Lei.

E nesse momento Homens e Mulheres da Lua,
Orientados pelas estrelas
Partiram para longe
E para dentro,
E deles nunca se soube,
Como já não se sabia
naquele momento...






segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Confissões da Leoa






Andando de um lado para o outro
E do outro lado para ti de novo
Eu ninava o amanhã,
Presa inconstante...

Mas nunca foi minha esta alvorada
De topázio azul,crisálidas de luz e marzipã...
o que eu embalo no peito é um oásis,
Eu persigo o que caço,
e defendo o que mato!
Esta carne que me serves esta insossa...

Eu que amainava a pressa, a ânsia, a prece,
Parecia sempre entregue
À minha  jaula.
Vivo a minha embriaguez de sonho
Adormecida em angústia,
Como poderias...se não me tocavas...

Eu preenchia o espaço
Minha canção de dor, um rugido
Claro, espatifando o silêncio em cores vibrantes...
Afiando as garras no silêncio,
Eu teci o poente...

Guardo eu círculos concêntricos meu coração de tocaia...
Não adivinhavas,
Quando eu saía, pensava saber
se eu voltava...
Equilibrando em meus olhos jarros d'água,
No peito alma acende-se em fagulhas
Insuspeitas,
Longíquas,
fratricidas, que trazem encoberta
sua intenção por entre as pálpebras...
Inundava templos de sangue,
Derramado em súplica, por minha causa...

Vencida em júbilo
Sabia que muito em breve
Seriam meus captores dilacerados...

O que o seu desejo não via,
Porque o orgulho de trazer-me em correntes
Cegava mais que o sol na vista cansada
Uma miragem no deserto em chamas,
Em  breve eu iria escapar...

Num rastro de pétalas de mel, línguas de chama,
No horizonte a desaparecer...
Mais dia, menos dia...arrastarei em minhas presas
A última noite...sangrenta...até desfalecer!



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Para começar o ano com uma prece...






Que os sonhos se desfaçam em pólen
E germinem em outros jardins
Que o mel destes sonhos
Tragam doçura ao dia-a-dia...

Que os fogos, magnífico artifício,
Explodam os temores, refulgindo 
em beleza.
Que o medo que ainda resta
seja fumaça sumindo
nos céus da noite...

Que a noite faça transparecer
A luz de novos sonhos,
no vento que sopra com força
tangível nessa transparente
palavra, essa necessidade indizível,
RENOVAÇÃO.

Que nos sobre vontade e atitude
Para seguirmos sempre nosso coração...

E que chovam bençãos nos sorrisos
De quem se deixa molhar
E acredita
Que é possível ser melhor
para o ano novo que já chegou
E que ainda virá...

Blessed Be

Ginga Vasconcelos.