terça-feira, 27 de setembro de 2016

Desajustados




Criança parada no pátio,olhando para a dança das sombras
das pitangueira,
tentando adivinhar o dia de amadurecer,
Tantas histórias tristes nos vãos das escadas,
onde habitam os melhores amigos imaginários
e onde escapar das brincadeiras "non sense"
no pátio.
Não gostava de coisa de menina.
Não gostava de coisas de meninos.
Mas via mapas nas mãos envelhecidas,
Bússolas claras que se abriam para
as paisagens pelas cores laminadas e foscas,
que atravessam a janela molhada pela chuva...
Adivinhava outras memórias pelas manchas nas paredes,
Pelas cores - sempre tão outras - de cada pôr do sol,
E rompia crisálidas com o canivete...
Rompantes de choro!
Rompantes de sol!
Protegendo castelos de areia e
Casas de barro, com pequenos animais
de plástico, tampas de garrafa, de caneta, estojos
de batom
E queria reter em si todas as lembranças,
mesmo as que não compreendia...

Criança ruidosa, inquieta, barulhenta,
Do tipo que bate, que derrama, que incendeia,
"Respondona", em busca da verdade,
Segue em frente, pergunta, não acha! Tateia...
Tremulam as vozes, as cortinas, as bandeiras.
Desespera quando se esconde, e quando se encontra!
Gosta de bandos, toca as campainhas,
Deixa cair os potes de bolachas,
Com a bola, despedaça vidros e estátuas
E no "cantinho do pensamento"
Canta desaforos...
Se esconde para beber leite condensado,
Bate o pé, recusa, ameaça...
Faz mais perguntas que não se sabe de onde...
E se vem resposta, já não presta atenção,
de volta para outra coisa, se cala,
Criança sem fé, sem mal, "fogo de palha"
Que estranha!!!
Por vezes, do nada, beija e abraça,
Em outras quer brincar de trabalhar...e trabalha!

Crianças caindo pelos desvãos do tempo,
nas paredes cinzas de cada sistema
Escondidas nas frestas, aguardam o momento
De romper
Ou de quebrar,
Trazendo consigo ainda mais problema...



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ítaca.

"Todo homem precisa de uma Ítaca e um navio".

As linhas da minha vida
Desenhadas em tuas pálpebras
Se nada mais me resta,
também nada mais me falta...

Leio o mapa do meu destino,
Desenhado em tuas pegadas
Enquanto, nus e de mãos dadas
Perseguimos as estrelas...

Batedores das tribos insurgentes
Caçadores dos sonhos em colapso
E o que distrai nossa mente
Mantém o coração no compasso...

E se o acaso nos fez distantes
E o bramir das ondas nos cala
E a tempestade, iminente,
Estrondosa em seus ritos de guerra...

Teu olhar será minha bússola,
Meu braço firme, teu leme
velas enfunadas, seguimos
Seguiremos para o lugar que partimos,
Cavalgamos sós pelas ondas,
O peito pleno da canção que encoraja
A nova música de um mito antigo...
Que toda a sede do mar seja nossa,
"- Para que no estio do  teu peito eu possa,
conquistar por fim o porto e o abrigo..."


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O circo mais caro do mundo!

DESRESPEITADO PÚBLICO!
CUBRO-ME EM DESONRA EM APRESENTAR A TODOS
O CIRCO MAAAAAAIIIIIIISSSS CAAAROOOOO DO MUNDOOOOO!





No circo mais caro do mundo o domador de palhaços grita,bate na mesa, estala o chicote, cobra
a fatura e inverte os papéis: de acusado passa a acusador.
Os palhaços em ciranda querem cantar, mas são tão horríveis os guinchos que soltam que assustam as moças e fazem chorar os bebês.
E quem traz bebês para tal lugar?
Aliás aqui é proibido amamentar...que idéia trazer...!!!
Tudo se faz para atrasar o início da atração principal...e tanto se protela, que a maioria já não conseguirá lembrar o que o fez pagar pela entrada.
E tudo o que fez por ela.
No palco, uns relembram os outros o que foram fazer ali.
E quais devem ser suas falas.
No circo mais caro do mundo, o tempo passa tão devagar que os garçons esquecem de levar o açúcar.
O café é amargo, mas sempre se pode conseguir mais.
Disfarça o gosto.
Desfaz o sono.
Distrai o cheiro.
O cheiro é de baratas esmagadas pelas engrenagens ocultas,
E a roda dentada girando incessante, triturando exoesqueletos, ruge por graxa...
Mas, disfarçado em baunilha, chocolate e algodão-doce, essa cacofonia olfativa até engana...
Enjoativa.
De volta aos atores...lá vem os malabaristas.
Tropeçando nos cordões dos sapatos, não conseguem se decidir entre garrafas brilhantes
e bolas coloridas. O mais divertido de todos, faz girar pelos ares pupilas azuis.
Alguns batem o pé, fazem biquinho e dizem que não querem mais estar na ribalta.
Mas alguém os trás de volta, pelo cabresto mesmo, que a madrugada já se aproxima.
Outros jogam confetes,riem e estradulam suas frustrações.
São os animadores de platéia.
Se todos gargalham, outros tantos imitam...
Mas nunca se sabe do que estão sorrindo.
Todos gritam, vociferam, rosnam e ninguém se entende.
Outros, choram, choram copiosamente.
Dão vergonha as fêmeas crocodilo, que já se retiraram para suas lagoas.
Seus discípulos há muito que as superaram, e elas não querem virar bolsa na mão das obscuras esposas superfaturadas.
Não há água para os elefantes...cada ego para quem se vira os holofotes é uma verdadeira esponja.
Absorvendo a luz que gira estroboscópica, em fuga.
De costas para a platéia, de frente para um cenário de espelhos.
 A iluminação favorece a maquilagem,
e anula as expressões.
O fogo amigo cria novos contornos e reflexos no gelo seco.
Infelizmente a sonoplastia não ajuda:
lâminas cegas de colheitadeiras em solo arenoso
baterias desafinadas na marcação do surdo,
...e uma sirene estridente, de quando em quando,
anunciando as novas atrações e silenciando as crianças.
Há poucos tigres e leões...mas sobram hienas e focas.
Os engolidores de espadas cospem fogo.
As trapezistas são interrompidas em pleno voo, e estatelam no chão para divertimento geral!
Temos um mágico, é o que fala com clareza e tira algemas da cartola.
Temos também um atirador de facas, que já assassinou todas as assistentes de palco, e hoje
expõe a si mesmo como o homem-cicatriz.
O menor homem do mundo tem uma estatura mediana, é calvo os poucos fios que lhe restam já grisalhos não lhe trouxeram
sabedoria. Por isso, consegue encolher-se até chegar ao tamanho de uma noz.
Seu truque é claro: não tem espinha dorsal...
O globo da morte é a tão propalada voz da consciência, que delata sem pena e sem prêmio.
Apela-se ao regimento para descumprir a lei.
Desapertam-se gravatas.
Arregaçam as mangas...
Inflam os pulmões e...tudo isso para fugir do trabalho!
Aliás  quem mais trabalha é o intérprete, que não encontra mais gesto para fazer entender tanta iniquidade.
Só lhe resta soletrar (e ainda bem que não desenha).
Dá pena de ver sua solidão.
Os piores atores de todos os tempos seguem recitando suas falas.
Vidrados os olhos, entopem as artérias, e com o rosto vermelho gritam impropérios...
O corpo fala, geme, range as juntas, cobra seu preço...
E o show tem que continuar.
Um rolo compressor ladeira abaixo esmagando tudo o que não vê
e que está logo a frente.
Cerram-se os painéis, as cortinas, abre-se pernas,cofres, contas...
E nada acontece!
Tudo permanece como sempre foi e esta!
No circo mais caro do mundo a alegria e o desespero se confundem.
E a platéia, ao fim do espetáculo,
se encaminha sem entender, entorpecida
para  saída, muda e extática,
siga à direita direto até a porta dos fundos,
a uma pequena abertura que as conduz para a escuridão
de toda a sua existência....